Jean-Jacques Rousseau
254. A AUTOCONTENÇÃO DE DEUS E DO HOMEM FEITO DEUS
Da coexistência entre a guerra e as armas nucleares pode resultar um temor de consequências. Para as evitar pode abolir-se a guerra, eliminar as armas, organizar-se o mundo sob o sopro inspirador do humanismo. Nenhuma destas soluções evidenciou ser viável, tendo surgido a doutrina da dissuasão.
Este dissuadir desanuviou, em dado momento, a sociedade internacional, tentando travar a corrida aos armamentos ou diminuir o seu ritmo e intensidade, o que nunca conseguiu, dado que tudo aumentou, sendo o desarmamento uma miragem.
Para uns, o inferno é hoje uma realidade fabricada pela ciência e cientistas que são meros especialistas indiferentes à sorte dos seres humanos, a mando de homens pequenos que governam o mundo: os fazedores do terror absoluto. A salvação está em nós, pessoas simples e sem ambição de Poder, o que é desmentido pelos não crentes no “Bom Selvagem”, de Rousseau.
Para outros, a possibilidade de usar o poder nuclear e a sua dissuasão funciona como uma autocontenção, autolimitação ou autodomínio de alguém que tem a aptidão e capacidade de acabar com a Humanidade e não o fez (nem tenciona fazer), mas apenas gerar medo e tentar ganhar superioridade por outros meios, depois de garantido o imobilismo de quem decide pelo receio do nuclear.
Mas o exemplo maior do princípio da autocontenção ou autolimitação é o de Deus ao sacrificar o seu filho, Jesus Cristo, pela crucificação e morte na cruz, “abandonando-o” (“Pai, porque me abandonaste?”), poupando o bom e o mau ladrão, o povo e a Humanidade no seu todo, começando pelos que o mataram e pediam a sua morte, ao contrário da ordem natural das coisas em termos de racionalidade humana. Criando o humano com livre-arbítrio, Deus autoconteve-se e limitou voluntariamente a sua intervenção para nos permitir agir por conta própria.
Deus, que tinha todo o poder, não acabou com a espécie humana e os autores, coautores, instigadores e cúmplices da morte do seu filho. Deuses gregos do Olimpo e os romanos Júpiter e Marte zangar-se-iam e, por certo, fulminariam os humanos punindo-os exemplarmente e extinguindo-os, consoante a gravidade da transgressão à norma por eles estabelecida.
Também na obra “O Conceito de Deus após Auschwitz”, de Hans Jonas, o autor confronta Deus perante a experiência individual vivida no campo de extermínio nazi, interrogando-se com o que tem de inexplicável, em termos humanos, para tamanha desumanidade e maldade, questionando: onde estava Deus? Conclui, angustiadamente, perante o silêncio divino, que Deus se autoconteve e autolimitou, que é causa e razão, para muitos, para nele não acreditarem (confrontar, neste blogue, Crónicas Pluriculturais 144 (I) e 145 (II), sob a epígrafe: Não somos a medida de todas as coisas”).
Se as consequências de uma guerra nuclear serão, no mínimo, um genocídio e, no pior, o fim da Humanidade, do Mundo, do planeta Terra, há que lançar um alerta aos humanos consciencializando-os que serão a primeiras vítimas desse conflito.
Porém, há também que reconhecer que se as potências nucleares são uma realidade indesmentível na sociedade internacional imperfeita que habitamos, podemos e devemos contribuir para que a sua ação e fins se pautem pela autocontenção e autolimitação dos seus decisores políticos (mesmo que dissuadindo), agudizado pela vulnerabilidade humana e também se ter colocado nas nossas mãos o poder de findar com a criação, o nosso mundo e a nossa espécie (o que também pode suceder com a necessidade de autocontenção da tecnologia associada à inteligência artificial).
03.04.26
Joaquim M. M. Patrício
Uma reflexão densa, mas muito pertinente. A ideia de autocontenção, tanto no plano humano como no divino, levanta questões importantes sobre poder, responsabilidade e limites. Gostei especialmente da forma como o texto articula temas tão complexos em torno dessa ideia central do valor da autolimitação.
S
Grato, reconhecido e sensibilizado pelas palavras sobre a complexa temática em análise.