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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

42. DAS CANTIGAS DE AMIGO AOS FALSOS AMIGOS


Na Idade Média amigo e amado eram sinónimos.   

As cantigas ou cantares de amigo eram cantigas ou cantares de amor.   

 

Ondas do mar de Vigo,   
Se vistes meu Amigo!       
E ai, Deus, se verrá cedo! 
Ondas do mar levado,
Se vistes meu amado! 
E ai, Deus, se verrá cedo! 

 

Amigo era o namorado, amiga a namorada.  
Por Deus, amiga, pode seer   
De vosso amigo, que morre d’amor 
E de morrer á já mui gran sabor     
Pois que son pode vosso bem aver. 

 

Amor e amizade são hoje dois magnos sentimentos que se diferenciam, no essencial, pelo seu grau de intensidade, tendo muitos a amizade como mais calma e discreta e uma variante do amor.

Sabe-se que o trabalho não preenche em pleno as necessidades espirituais do ser humano. 

Há que contar com o amor e a amizade.   

Na amizade há os verdadeiros amigos e os falsos.   

Entre os últimos incluem-se os amigos de louvaminhas, de adulação untuosa e vil.

Os que fogem em grupo quando a roda da fortuna desanda.

Os que partem quando alguém perde valimento por já não poder fazer favores ou arranjar facilidades. 

Amigos dos tempos prósperos que nos ignoram e desprezam nas horas más.   

No poema Os Amigos, Camilo Castelo Branco retrata-os assim:

 

Amigos cento e dez e talvez mais,   
Eu já contei! Vaidades que eu sentia!       
Pensei que sobre a terra não havia   
Mais ditoso mortal entre os mortais.  
   

 

Amigos cento e dez tão serviçais, 
Tão zelosos das leis da cortesia, 
Que eu já farto de os ver, me escapulia     
Às suas curvaturas vertebrais,

 

Um dia adoeci profundamente, 
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente   
Que não desfez os laços quase rotos,   
 

 

Que vamos nós (diziam) lá fazer,   
Se ele está cego, não nos pode ver…         
Que cento e nove impávidos marotos!

 

13.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

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