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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

93. POESIA E LIBERDADE


OSIP MANDELSTAM: IN MEMORIAM

Vivemos sem sentir o chão nos pés,   
A dez passos não se ouve a nossa voz.

Uma palavra a mais e o montanhez          
Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.

Seus dedos grossos são vermes obesos.      
Suas palavras caem como pesos.

Baratas, seus bigodes dão risotas;
Brilham como um espelho as suas botas.

Cercado de um magote subserviente,      
Brinca de gato com essa subgente.

Um mia, outro assobia, outro geme.    
Somente ele troveja e tudo treme.    

Forja decretos como ferraduras:  
Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!

Frui as sentenças como framboesas.   
O amigo Urso abraça as suas presas.

Osip Mandelstam, poeta russo da primeira metade do século XX, escreveu um poema contra Estaline, apontando-o como o assassino de bigode de baratas, sendo preso e exilado num campo de trabalhos forçados, onde morreu.  

Terá dito, da União Soviética, ironizando e enquanto vivo, segundo testemunho da mulher: “Não te podes queixar, em mais nenhum sítio há tanto respeito pela poesia, até se mata por causa dela”.       

Ironizava que ninguém prezava tanto a poesia como os regimes totalitários, onde um poema lhe custou a vida.  

Ao tentar derrubar o ditador com um poema empenhado e de risco total, provou que a poesia não pode coabitar com a negação da liberdade, podendo ser tida como perigosa. 

A poesia é a afirmação por inteiro da liberdade, do refletir sobre a vida e o ser humano, havendo uma tensão não resolvida entre ela e o poder quando questiona a negação da vida em dignidade e a atividade criativa. 

O poema resistiu e ficou, para memória futura, 131 anos após o nascimento do seu autor, a 14 de janeiro de 1891, que morreu no Gulag, Sibéria, em 1938, com 47 anos. 

 

14.01.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

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