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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Artigos de Opinião

É necessária a Diplomacia da Paz

Em várias instâncias internacionais, cresce a inquietação com a escalada do da guerra na Ucrânia, a perspetiva de eternização do conflito, e a catástrofe humanitária que poderá aumentar significativamente. O Papa Francisco deixou a mensagem veemente: “O meu apelo dirige-se, em primeiro lugar, ao presidente da Federação Russa, pedindo-lhe que pare, também por amor ao seu povo, essa espiral de violência e morte. Por outro lado, entristecido pelo imenso sofrimento do povo ucraniano na sequência da agressão sofrida, dirijo um apelo igualmente confiante ao presidente da Ucrânia para que esteja aberto a propostas sérias de paz”. E acrescentou: “A todos os protagonistas da vida internacional e aos responsáveis políticos das nações, exorto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para pôr fim à guerra em curso, sem se deixarem arrastar para escaladas perigosas, e a promover e apoiar iniciativas de diálogo. Por favor, deixemos que as gerações mais jovens respirem o ar saudável da paz, não o ar poluído da guerra, que é uma loucura!”.

Andrea Riccardi, o fundador da Comunidade de Santo Egídio, lamentava que ninguém dê ouvidos à voz do Papa. “Não vi em lado nenhum o desejo de encontrar um caminho de paz. E estou muito preocupado porque, no mundo pós-globalizado, as guerras têm uma caraterística particular: eternizam-se”, afirmou.

Riccardi recusa a ideia de que falar de paz é ser pró-Putin. “Falo de paz – sublinha – porque a paz deve ser um objetivo que nos propomos com energia, para que a palavra paz não seja removida do vocabulário”.  Esclarece, por outro lado: “Quando falo de paz, penso sobretudo no povo ucraniano bombardeado. Penso nos 7 milhões de ucranianos, a maioria mulheres e crianças, que deixaram o país e se tornaram refugiados no mundo; penso nessa nação que corre o risco de ser destruída”. O envio de armas para a Ucrânia “é correto porque ajuda Kiev a defender-se, mas isso apenas cria equilíbrio no conflito”, enquanto “é preciso algo mais: é necessária a diplomacia da paz”.

Mario Giro, ex-vice-ministro dos negócios estrangeiros de Itália e também membro da Comunidade de Santo Egídio, procura explicar o que não funcionou para que a guerra na Ucrânia fosse desencadeada por Putin, procurando igualmente olhar para o futuro.  Para ele, o Ocidente, que respondeu prontamente ao pedido de ajuda do governo ucraniano, vê-se agora perante a urgência de equacionar perguntas como estas: “Como pôr fim a esta guerra? O que haverá depois de ela acabar?”

Recordando que houve já outros conflitos em que foi possível pensar na paz, antes de a guerra acabar, Mario Giro defende que “é preciso pensar em construir um amanhã enquanto ainda se está a combater”, respondendo a uma pergunta-chave: “como reconstruir na Europa a convivência com a Rússia, no futuro?”.

Este ponto é justificado deste modo: “Certamente, não podemos ignorar este grande país, o maior do mundo, rico em recursos naturais e culturais, cheio de problemas dentro e fora de suas fronteiras. (…)

A questão das fronteiras deste país é um tema enorme, não apenas em relação à Ucrânia. Não podemos ignorá-lo. O Ocidente europeu não poderá permitir-se uma guerra permanente com a Rússia, sob todos os pontos de vista: económico e de segurança. Os Estados Unidos veem a Rússia de uma forma inevitavelmente diferente da Europa. Basta olhar para o mapa: entre os dois grandes países, existe um oceano a meio”.

Mario Giro reconhece, no entanto, que, no estado atual das coisas, nenhuma das partes diretamente envolvidas na guerra se quer sentar à mesa das negociações, já que isso pressuporia disposição para fazer cedências. Mas esse facto não deveria impedir que as instâncias internacionais inscrevessem a busca da paz na agenda dos encontros.

Voltando a Andrea Riccardi, é preciso “É preciso uma imaginação criativa para sair deste conflito. Parece impossível agora, mas a paz nunca é impossível. Devemos alcançar o inatingível. Perante a ameaça atómica, é necessária uma política de paz”. “A paz é urgente e necessária”, reconhece o Presidente da República italiano, Sergio Mattarella. Mas passa, a seu ver, por “um restabelecimento da verdade, do direito internacional, da liberdade do povo ucraniano”.

(Elementos da Comunidade de Santo Egídio, que agradecemos)

Comentário sobre “É necessária a Diplomacia da Paz

  1. Gostaria de dizer muito pessoal e convictamente, que tanto a guerra como quase todo o mal se devem ao capitalismo. Neste caso da guerra entre a Rússia e a Ucrânia suponho que o conflito terá também uma contribuinte religiosa.
    Reparo também, que ao longo de todo o texto , não há referência a qualquer nome de mulher, quando “ há características femininas que, diferentes das do homem, muito podem contribuir para a diplomacia: uma grande dose de realismo e, porventura a isso ligada, a noção de que, o diálogo diplomático possui uma margem de aplicação muito mais alargada do que normalmente se julga, não se reduzindo à «mesa das negociações» com interlocutores estrangeiros. Aprendi, por exemplo, de uma diplomata portuguesa que, mais difícil do que a «diplomacia externa» (a propriamente dita), pode ser a «interna», aquela que é levada a cabo dentro do próprio Estado, e permite manter uma máquina oleada e harmoniosa no plano interno, cuja atuação se possa eficazmente refletir em bons resultados internacionais.” – lia-se no artigo “Rainha Santa Isabel, mulher, mãe, política e diplomata?” escrito por João Sabido Costa, que saiu no Portal dos Jesuítas no dia 4 deste mês.
    A título de amenização do assunto, refiro as palavras da pastorinha Lúcia, em resposta ao sacerdote que lhe perguntou o que é que eles pensavam , quando a Virgem lhes pediu para rezarem pela conversão da Rússia, “ Nós pensámos que era uma mulher de má vida e rezámos por ela”.
    Antes de terminar, apenas gostaria de dizer, que também não jogo muito à bola com a Rússia, mas é devido ao que fizeram aos Países vizinhos.

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