Edgar Morin (1921-2026) foi uma referência fundamental para o Centro Nacional de Cultura. Assinalamos hoje uma relação de mais de sessenta anos que marcou a nossa vida intelectual.
«Tudo começou com “O Tempo e o Modo”, na relação de António Alçada com Jean Marie Domenach, então diretor da revista Esprit. Em Paris foi apresentado a Edgar Morin, figura respeitadíssima do pensamento europeu. A conversa foi um “coup de foudre”. A amizade tornou-se sentida e profunda. Houve um fascínio evidente pela personalidade e pelas ideias de Morin. A partir daí o pensador passou a acompanhar o caso português como processo de sementeira de ideias e de diálogo cultural. Reconhecerá mais tarde que a influência de “O Tempo e o Modo” entre os jovens milicianos em África tornou-se fundamental. As ideias de diálogo, de complexidade, de pluralismo vingaram. Ernesto Melo Antunes ou António Lobo Antunes são bons exemplos de leitores desse tempo. Este é um ponto que não tem sido muito referido e que Edgar Morin considerou sempre muito importante na Revolução portuguesa.
Alçada apresentou Edgar Morin a Mário Soares e foi outra amizade que ficará para sempre. Trata-se de um caso muito especial de construção da democracia – a revolução, o compromisso do MFA de implantar instituições civis, o compromisso assumido pelos partidos e pela sociedade, o primado da liberdade. Com Helena Vaz da Silva será referência fundamental na revista “Raiz e Utopia”. “O Esplendor das Amizades” foi um título dado por Edgar Morin, que não desejou partir antes de fazer esta homenagem.
A influência na sociedade portuguesa de Edgar Morin chega assim ao mundo pedagógico com António Oliveira Cruz no Instituto Piaget ou com Teresa Ambrósio presidente do Conselho Nacional de Educação. Jorge Sampaio agraciou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada e Marcelo Rebelo de Sousa com Grã-Cruz do Infante D. Henrique. O atual perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória baseia-se no pensamento de Edgar Morin. Como disse repetidamente entre nós, teve em Portugal a demonstração de que uma sementeira de ideias tem resultados positivo.
Edgar Morin entusiasma-se com os amigos portugueses que em muito pouco tempo evoluem rapidamente no sentido da compreensão das causas profundas da justiça e da solidariedade humana. No fundo, a ideia de complexidade que ocupa as investigações de Morin encontra eco no generoso contributo de quem no dia a dia vai provando a vantagem indiscutível dos compromissos, que aproveitam os contributos de todos na medida das suas especificidades. A Democracia constrói-se a partir da compreensão da vida quotidiana e nada melhor do que fazer da entreajuda o método adequado para defender o bem comum. Sempre a relação entre a Raiz e a Utopia, entre a tradição e a modernidade, entre o passado e o futuro. Daí a importância da partilha de preocupações e de uma reflexão em diálogo, assente na aceitação das diferenças e na procura de uma mediação no seio das instituições. Sendo a liberdade um valor essencial para Edgar Morin, o certo é que há nele uma preocupação dialógica sempre presente.
A fonte do Humanismo europeu encontra-se na Grécia e no Cristianismo – que determinam uma ideologia, um conflito e uma inter-fecundação mútua das diferente fontes. E há ainda a ciência como domínio do conhecimento e da experiência. Mas Morin pôs sempre em diálogo realidades diferentes que constituem a pessoa humana. Por isso gostava de lembrar o pensador italiano que falava da ciência como “cantiere tumultuose”, “estaleiro tumultuoso”. Falando de Pascal e Dostoievski, lembrava que Pascal leu Montaigne e apreendeu o ceticismo crítico. Ora, Pascal era um cientista, um espírito racional, que pretendeu com as armas da razão mostrar os limites dessa mesma razão. Contudo, também era um homem de fé. E vai demonstrar que a competência da Razão é limitada, ou seja, há uma ordem, a que chama ordem da caridade que a razão não pode alcançar. Pascal utiliza o ceticismo para criticar a razão. Rompendo com o pensamento teológico clássico, para o qual Deus é absolutamente evidente e provado, diz-nos que Deus é incerto, sendo um assunto a discutir. E propondo este desafio, como aposta, introduz a dúvida e a controvérsia no que é mais fundamental – Deus. É evidente que este pensamento de Pascal, pensamento trágico, que ele viveu de uma forma intensa, é um dos fulcros mais extraordinários da cultura europeia. Quanto a Dostoievski, é preciso dizer que a cultura russa é uma das grandes culturas europeias como cultura viva, porque vive da oposição entre eslavofilia e ocidentalismo. O autor de “Crime e Castigo” assume, assim, essa contradição com um intensidade incrível. Depois de ter sido um revolucionário ocidental, torna-se um eslavófilo pro-czarista, mesmo sem perder fermento da dúvida e da contradição, que se exprime no “Apólogo do Grande Inquisidor”.
A cultura europeia é, assim, marcada pela tragédia e pela contradição e teve um potencial universal desde o seu nascimento. Mas, apesar da sua particularidade – na racionalidade, na ciência e no humanismo –, está hoje universalizada. Há três séculos o Ocidente era uma pequena porção da Europa, hoje, a Europa é uma pequeníssima parte do Ocidente… Não somos proprietários de uma cultura. Somos apenas herdeiros, o que é bem diferente. E assim estamos numa situação em que o património é comum a toda a Humanidade.
A intensidade dos debates e das reflexões torna-se essencial. Por isso devemo-nos empenhar para que esta problematização se transforme num novo Renascimento. Esta é a preocupação de Edgar Morin, não perder a memória de mil encontros fundamentais. Daí a insistência em deixar fixada a importância deste encontro português, que definiu a construção da democracia entre nós, não como protagonismo, mas como pano fundo, como rede de cumplicidades. Estamos num diálogo vivo, não de protagonistas maiores, mas das subtis sinapses que permitem aos acontecimentos importantes ter lugar. E muitas vezes um encontro aparentemente menos importante torna-se a chave essencial de uma explicação, exatamente como o acontecimento é verdadeiramente o grande mestre interior.

Guilherme d’Oliveira Martins
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