É para mim um imperativo e sobretudo um privilégio poder evocar a memória do Historiador de Arte e Professor Manuel Pedro do Rio-Carvalho. Fui sua aluna nas disciplinas de História da Arte e no seminário de Historiografia da Arte em Portugal na segunda metade dos anos de 1970, e por ele voltei em 1984/85 à Faculdade de Letras da então Universidade Clássica de Lisboa para frequentar a sua disciplina sobre as Artes do Espectáculo. Nessa altura, já estava desde 1981 e por seu convite, como sua assistente nas disciplinas de História da Arte e Introdução à de História do Design no IADE, como o voltei a ser anos depois na Fundação Ricardo Espírito Santo.
Provavelmente, a maioria dos participantes reunidos nesta sessão do Cento Nacional de Cultura em sua homenagem, tê-lo-á conhecido, escutado ou lido alguns dos seus artigos. Somos os privilegiados que temos o dever de preservar a memória de um Professor inspirador, um conferencista apaixonado, intuitivo e inovador, um estudioso que, diante de uma pintura, um vaso de Gallé ou de Rafael Bordalo Pinheiro, um edifício civil ou religioso, tinha um dom raro e excepcional: o de conseguir capturar e compartilhar a sua leitura sobre a originalidade de uma obra de arte, a sua produção e especificidades, quantas vezes em sínteses insuperáveis.
De uma grande independência de espírito e carácter, frequentemente acutilante e de uma franqueza surpreendente, era de uma total generosidade ao compartilhar os seus conhecimentos e a sua imensa cultura. Inspirador, prendia pelo dom da palavra – precisa, sensível, vibrante – tanto a especialistas como a um público de curiosos ou não iniciados.
Devemos-lhe múltiplos artigos – muitas vezes plagiados, sublinhe-se – e que urge serem reunidos num volume, tanto mais por se encontrarem dispersos em várias publicações, nomeadamente na extinta Colóquio. Artes, no semanário Expresso, no Jornal de Letras, ou em vários catálogos de exposições. Deixou-nos em 1986 a direcção de um volume da História da Arte em Portugal das Publicações Alfa sobre o período que mais estudou, “Do romantismo ao fim do século”, e nesse mesmo ano o livro dedicado à pintora Emília Nadal, mas destaco sobretudo a sua inovadora tese de licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas intitulada Tentativa de caracterização e valorização de l’Art Nouveau através das artes decorativas, que deu a conhecer em 1954 e fez descobrir a várias gerações de alunos e estudiosos o movimento Art Nouveau, tese que continua à espera de ser publicada, só podendo ser consultada na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
O pintor e também professor Eduardo Batarda, num depoimento para a Fundação Calouste Gulbenkian, a propósito da exposição Professores que teve lugar no CAM, declarou: “Pensei sempre que o Manuel Pedro do Rio-Carvalho era um professor de grande qualidade, e um anjo na terra.” Como gostaria de ter sido a autora destas palavras, eu que lhe devo quase tudo na minha formação e percurso profissional…
Muito obrigada.
Maria Helena Souto
Lisboa, 15 de Junho de 2011

Rio-Carvalho, foi também professor na Escola de Artes Decorativas António Arroio, foi meu professor e de muitos outros alunos, durante os anos 1957 a 61, quando lá estive; era afável, todos tínhamos um certo afecto brincalhão para com ele, pois éramos moços. Sabíamos que era um amante da Arte Nova e do Piero della Francesca ; saudoso amigo com quem se conviveu sendo nós jovens alunos.
SAUDADES.
Torna-se difícil comentar, para além do que já foi dito aqui, sobre o grande, ilustre e iluminado Dr. Manuel Pedro Rio-Carvalho, que também me privilegiou como professor durante 3 anos, no IADE.
Deixo uma das suas “tiradas”, nas primeiras aulas, que desde logo me cativou.
– Alguém tem dúvidas? – perguntou, com aquela voz dura que lhe era inicialmente peculiar.
Numa mistura de respeito e temor, obviamente ninguém respondeu.
– Sabem, só os ignorantes não têm dúvidas! Eu, por exemplo, tenho imensas dúvidas sobre a história da arte. – retorquiu e sob o nosso absoluto silêncio, a aula continuou.
Em definitivo, as minhas memórias de vida não passam sem intrinsecamente o homenagear e notabilizar o seu enorme contributo para a nossa realidade cultural e artística.
Ficam também as saudades.
Lembrar o Prof. Manuel Pedro Rio-Carvalho é sempre um gosto.
Fazemos nossas as palavras do comentário.
Por lapso, não me identifiquei, posteriormente não foi possível solucionar e como não é uma prática que defenda, aproveito para o fazer agora.
Isabel Maria Pimenta Bernardo
Muito obrigada pelo seu cuidado, e boas leituras!
Fui aluna do prof Rio de Carvalho, na disciplina de História de Arte na Fundação Ricardo Espírito Santo e fiz com ele a viagem de fim de curso, durante 15 dias a Roma, Florença, Assis e Siena, em 1974.
Lá, todo o estudo das obras foram acompanhadas por ele exaustivamente, foi soberbo!!!!!!! Hoje ainda me recordo bem deste grande Homem.
Muito obrigada pelo seu comentário. O Prof. Rio de Carvalho era de facto um Homem excepcional.
Boas leituras!
Fui seu aluno nos 1º e 2º anos do Curso de Arquitetura na antiga ESBAL, nos anos 1965 e 1966.
Era um excecional professor.
A nossa cultura teve nele uma fortíssima base.
Recordo-o pela sua absoluta competência e fazer-nos pensar a Arte de forma estruturada. Sensibilizou-nos a todos para a Arte Nova de que foi, talvez, o maior especialista até aos dias de hoje (2020).