auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

EVOCAÇÃO DE NORBERTO BARROCA

 

Evoca-se aqui a obra de Norberto Barroca (1937-2020), figura de destaque como dramaturgo, historiador, professor crítico e gestor interventivo da criação e da atividade teatral. A sua ação na área do teatro foi assim abrangente da própria diversidade que acima se assinalou, e que tivemos ensejo de, em muitas situações, acompanhar.

 

Designadamente, foi no Teatro Experimental do Porto – TEP, por ele dirigido durante mais de 10 anos, que Barroca marcou esse tipo de intervenção, desde logo notável pela própria abrangência, aliás adequada ou exigida nas artes do teatro-espetáculo, e neste caso reforçado pelas circunstâncias.

 

Norberto Barroca completou o curso de Arquitetura em Lisboa e exerceu funções que conciliava com a sua atividade de produção e interpretação. Esteve ligado a numerosos grupos e programas de cultura teatral, aí envolvendo puras intervenções que foram reforçando também a sua atividade como ator.

 

E em 1960, o Centro Nacional de Cultura comemorou os 25 anos da morte de Fenando Pessoa, numa encenação de Fernando Amado, onde Norberto Barroca se estreou profissionalmente.

 

E justamente, no âmbito do CNC, esteve ligado a iniciativas relevantes de produção e cultura teatral, designadamente a fundação da Casa da Comédia que iria estrear o “Deseja-se Mulher” de Almada Negreiros.

 

E não é demais evocar aqui a qualidade de texto e de espetáculo do teatro de Almada Negreiros, e designadamente esta peça, que sublinha e sublima toda a dramaturgia do autor na perspetiva existencial a partir da expressão do amor. 

 

Norberto Barroca inicia pois atividade na Casa da Comédia, o que se adequava, na época, a um intérprete que não tinha ainda ou não concretizava uma vocação digamos profissional, até porque justamente a Casa da Comédia assumia na época expressão sobretudo cultural.

 

E no entanto, tal como foi agora recordado a propósito da sua morte, Barroca terá estreado em 1967 “Noites Brancas”, peça de Dostoiévski, o que não facilitaria essa primeira estreia… Foi galardoado com um prémio dois anos depois pela encenação das “Noites Brancas” de Fernando Arrabal.

 

Norberto Barroca desenvolveu uma vasta e diversificada carreira de diretor-encenador de numerosos grupos, companhias e teatros, em Portugal, no Brasil ou em África, designadamente, mas não só, em Moçambique, onde exerceu arquitetura durante dois anos. São mais de 15 os teatros onde atuou de uma forma ou de outra, com eventual destaque para a Companhia Nacional de Teatro, de que foi diretor no São Luiz, o Teatro D. Maria II, o Teatro Experimental do Porto ou o Teatro Popular-Companhia Nacional, além de tantas e tantas mais…

 

E citamos, para finalizar este texto, as declarações de Norberto Barroca a propósito de um espetáculo que fez para a companhia do Seiva Trupe em 1982, intitulado “Um Cálice do Porto”:

 

“Eu queria fazer um espetáculo sobre o Porto; tinha de ser ligado ao vinho do Porto, com várias etapas da história da cidade. E tinha de ter música e ter números entre o sério e a crítica do tipo do teatro de revista, com referências à atualidade”…

 

E basta acrescentar que o espetáculo esteve em cena dois anos!…

 

DUARTE IVO CRUZ   

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *