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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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FERNANDO AMADO DISCORRE SOBRE GARRETT

Almeida Garrett (1799-1854)
Almeida Garrett (1799-1854)

Em dezembro de 1969 assinalou-se o primeiro aniversário da morte de Fernando Amado, ocorrida exatamente em 23 de dezembro do ano anterior. Já aqui referi as ligações de família que me relacionam com Fernando Amado, e o interesse e proveito intelectual e cultural de que beneficiei durante os anos em que, a par de uma sofrida licenciatura em Direito, frequentava, como “aluno ouvinte” como então se dizia, as aulas de Estética Teatral e de Encenação de Fernando Amado no Conservatório Nacional. Não é demais novamente recordar que muito do que sei de teatro a ele devo. No primeiro aniversário da sua morte, foi-me pedido um texto alusivo à vida e obra, para uma sessão evocativa. Relendo-o hoje, encontro uma longa análise de Fernando Amado sobre o teatro e a obra de Garrett, que é interessante aqui transcrever em parte. Até porque me faz recordar a qualidade ímpar da sua docência.

Diz então Fernando Amado, e transcrevi nessa evocação, que “Garrett, o príncipe dos nossos dramaturgos, teve singular intuição do que havia a esperar do teatro. Pressentiu-lhe a origem sagrada; quis ressuscitar o coro helénico em jeito português e, pela mão de Gil Vicente, renovar o auto medieval; compôs três peças felizes sobre temas eternos da nacionalidade. Maior gratidão nos deve merecer ainda o que planeou sem ter feito o bastante para o ilibar das culpas que teria tido no posterior desvairo romântico”…

Havemos de voltar a estes textos de análise histórica de Fernando Amado. Mas para já, interessa-me salientar a justeza do enquadramento histórico sobre o teatro português. Na verdade, a Garrett se deve a renovação romântica do teatro e a sua modernização nos cânones da época e só ele a fez com verdadeira qualidade, pois os outros dois iniciadores do nosso romantismo – Herculano e Castilho – ficam muito aquém no que toca ao teatro. E o que se seguiu já foi ultrarromantismo.

Garrett é de facto um poderoso iniciador, e não só no plano dramatúrgico: a reforma do teatro encomendada por Passos Manoel e consagrada na Portaria de 15 de setembro de 1836 criou uma estrutura que ainda hoje subsiste: Inspeção Geral de Teatro e Espetáculos, Teatro Nacional, Conservatório de Arte Dramática, Companhia Nacional de teatro, concursos de peças, proteção de direitos de autor, política de subsídios.

 
E vale e pena, porque é retintamente garrettiano, recordar o relatório deste texto, dirigido diretamente a D. Maria II: “Valetudinário e achacado de corpo e espírito que ambos quebrei ao serviço de Vossa Majestade e pela santíssima causa da liberdade da minha Pátria,”…

Fernando Amado não cita este texto, mas o que diz de Garrett encaixa-se nele com precisão: “também a Garrett pertence o alacre apelo ao dramaturgo. Cuidado que em dramaturgo há demiurgo.” E mais: “ele, dramaturgo, é instrumento e condição do diálogo. Atue pois como se estivesse simultaneamente no palco e na plateia, sincero, por amor dos homens, discreto por amor da arte”… Notável lição de um grande professor de teatro, de um grande doutrinador que foi também um grande dramaturgo – e referimo-nos evidentemente, a Fernando Amado.

 

DUARTE IVO CRUZ

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