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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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FERNANDO AMADO DRAMATURGO



Não se pretende analisar ou sequer referir o conjunto da dramaturgia de Fernando Amado (1899-1968) num só artigo. A sua obra é vasta e, no que se refere ao teatro, abrange a globalidade da criação, desde as peças propriamente ditas à encenação, à doutrina e estética teatral, à pedagogia e ao ensino e à direção de iniciativas e companhias teatrais – e sobretudo à Casa da Comédia, à qual esteve ligado o Centro Nacional de Cultura. Fernando Amado integrou aliás, nos anos 60, a direcção do CNC: e a Casa da Comédia de certo modo nasceu aqui. 


Ora, é oportuno lembrar que a amizade de Fernando Amado e Almada Negreiros vinha de muito de trás, mas passou pelo CNC e pela Casa da Comédia, sobretudo na verdadeira aventura que foi a estreia do “Deseja-se Mulher” de Almada, dirigido por Fernando Amado. 

 

A peça, como bem sabemos, é exigente, para não dizer difícil, na medida em que envolve um espetáculo integral nas componentes de texto, de cena, de música e de ambiente. De tal forma aliás que a ambientação de 1919, em rigor não perdeu atualidade na estreia dos anos 60, como não a perdeu rigorosamente hoje, pela qualidade do texto mas também pela profundidade critica do conteúdo, repita-se, psicológico e mesmo social – e isto, sem querer obviamente ignorar que decorreu quase um século sobre a Lisboa e sobre o país, a sociedade e as psicologias e condutas que Ele e Ela, a Vampa, e os demais personagens evocam.

 

Mas a evocação de Fernando Amado, aliás como a de Almada, não se esgota num único texto. Iremos vendo a vasta dramaturgia de Amada ou a sua doutrinação estética. Mas precisamente, uma e outra cruzaram-se nos anos que leccionou no então Conservatório Nacional – Secção de Teatro, hoje Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa.

 

Recordo essas aulas a que tive o privilégio e o proveito de assistir como aluno-ouvinte, enquanto prosseguia, com menos entusiasmo, o curso de Direito. E lembro muito particularmente a alocução que, logo no início nos dirigia: “é preciso tirar o Conservatório do seu próprio mistério, mostrar a todas as pessoas o que cá se faz”. E o que lá se fazia era uma abordagem global da arte teatral em todas as suas componentes.

 

As aulas de Fernando Amado eram um misto de ensino teórico, de exercício prático e de ensaio de espetáculo. Mas essas componentes completavam-se. A teoria, mais desenvolvida na cadeira de Filosofia do teatro que também ministrou, estava subjacente à prática da cadeira de Arte de Representar e Encenação.

 

Era a terminologia dos programas da época – 1958… mas o conteúdo era de hoje, porque o teatro dura desde sempre e não perde atualidade quando não perde qualidade.

 

Iremos analisando a dramaturgia de Fernando Amado: e de caminho, iremos recordando a trajetória da Casa da Comédia e da colaboração com Almada Negreiros, nessas e em outras iniciativas.

 

DUARTE IVO CRUZ

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