Temos aqui referido textos de Fernando Amado recolhidos na coletânea intitulada “À Boca de Cena”. E efetivamente, trata-se de intervenções sobre aspetos estéticos, mas também técnicos e de gestão das artes de espetáculo, e em particular do teatro. Hoje, recordamos uma análise notável de Fenando Amado sobre arte e técnica, à qual Almada, entre outros participantes, por exemplo António Dacosta, Afonso Botelho, Eduardo Viana, Vasco Futscher Pereira, deram réplicas em geral convergentes, num debate realizado no Centro Nacional de Cultura em 1951.
Fernando Amado discorre sobre as relações entre a arte e a técnica, na perspetiva de uma complementaridade em que a arte, isto é, a criação, prevalece.
“Não digo que a técnica não seja um tesouro. Mas para um artista a técnica é de ordem pessoal, intransponível, intimamente relacionada com o seu próprio trabalho. Nem de longe ele pode admitir que a técnica, isto é, o modo como ele tem de submeter (às vezes pela astúcia) a matéria, seja o que vai dar forma à poesia e lançar a ponte sobre as almas e corações”.
O primeiro aspeto que quero aqui ponderar é precisamente, esta distinção, por vezes esquecida, entre a criação propriamente dita e a expressão técnica da sua transmissibilidade. Claro que uma não se realiza sem a outra, pois arte é criação mas também comunicação, seja simples e direta por uma declamação, por exemplo, por uma recitação, seja pela complexidade crescente que impõe uma sinfonia executada por uma orquestra, ou um filme ou uma encenação do texto teatral.
E daí que Amado conteste uma convicção generalizada, aplicada às artes plásticas como exemplo, que “desde que (o pintor) saiba obter efeitos com as misturas das cores do espetro solar e saiba geometricamente contornar uma sombra e construir uma perspetiva, está pronto a entrar em colóquio com a obra de arte”… não chega; falta o principal, a criatividade a “ponte sobre as almas e corações”…
Almada diz que “a Arte é universalmente de todos os artistas. A técnica é exclusivamente de cada um. (,,,) É secreta”. António Dacosta gosta de avaliar uma obra de Arte pela reação que produz… Ainda que uma pessoa não perceba, teve uma reação boa ou má. Futscher discorre sobre as “incompatibilidades entre o artista – de qualquer tempo – e o seu público“, e Eduardo Viana insurge-se contra reações do público, no caso concreto, a uma exposição do pintor brasileiro Cicero Dias: “as senhoras, quando passavam diante dos quadros diziam todas uma à uma: Que horror! (…) E eu digo: onde está o horror naqueles céus, naquelas tonalidades deliciosas? Podiam ao menos dizer também: que lindas cores. Mas não! E Afonso Botelho questiona: “Será a Arte plástica uma arte pura, de tal modo que a forma e a cor, que fazem parte da sua essência, basta para a definir e portanto, para a tornar sensível?”
A conclusão de Fernando Amado é, apesar de tudo, no mínimo esperançosa: “Entre a gente nova está sucedendo qualquer coisa extraordinária na nossa terra. Vemos manifestar-se com vigor uma curiosidade sã, uma vontade generosa de realizar, que não se limita a devaneios. Surgem núcleos diferentes na música, nas letras, no teatro, nas artes plásticas. A atividade deste Centro Nacional de Cultura é um sintoma entre tantos”.
DUARTE IVO CRUZ