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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

Templo de Todaiji, em Nara

 

2. O SOL NASCENTE, A CHINA E O BUDISMO


Os nomes (Japon, Japan, Giapone, etc.) que as línguas europeias dão a Nippon, Nihon, Hi no Moto — estes três termos significando, em japonês, a origem do sol – vêm do português Japão, por sua vez proveniente da pronúncia
japuen, nos dialectos chineses de Fukien e Kwangtung, do mandarim Jih-pun que quer dizer, como Nippon, a origem do sol… Já no século XVI, João Rodrigues, o tçuzu ou intérprete,no-lo explicava. O mesmo jesuíta português, autor da “Arte da Língua Japoa”, nos ensinava também a interpretação e construção dos kanji ou caracteres chineses utilizados na escrita japonesa. A influência da China na cultura japonesa afirma-se inicialmente em meados do sec.VI,com a introdução do budismo e da escrita, e vai-se afirmando militantemente até finais do sec.VIII. São 250 anos de “importação” cultural, tantos quantos os de reclusão do Japão, um milénio mais tarde, do sec.XVII ao XIX, do fim do “século cristão” à abertura forçada pelo comodoro americano Perry em 1854. No sec.VI da nossa era, como, posteriormente, com a chegada dos portugueses no sec.XVI, e ainda na chamada “restauração Meiji” no sec.XIX, a vinda de estrangeiros e suas culturas é recebida no Japão em conformidade com motivações de ordem política. Quando o Príncipe Shotoku, regente do Japão, quis afirmar a instituição imperial (e a sua casa) acima dos vários senhores e suas guerras,que partilhavam o poder, olhou para a China, essa donde tinha chegado o budismo, a escrita (e o registo histórico, legislativo e administrativo que  ela faculta), como também Tao e Confúcio. O direito de propriedade e o fiscal, o penal e o administrativo, foram inspirados nos correspondentes sistemas do Império Tang chinês. Importou-se a escrita em caracteres chineses, tal como se simplificaram alguns destes para efeitos de transcrição fonética e adaptação à diferente sintaxe da língua japonesa. Esses caracteres simplificados ou hiragana eram inicialmente utilizados no relato de acontecimentos, e sobretudo por todos os excluídos da classe dos letrados, designadamente as mulheres. Assim se explica como o primeiro romance da literatura japonesa (e talvez universal)   —  Os Contos do Genji  —   fosse escrito em hiragana por uma senhora da corte imperial, Murasaki Shikibu. Da China também foi importada a intenção política do mito da origem celestial da linhagem imperial,que legitimaria o poder divino do imperador sobre o meramente temporal dos senhores da terra e da guerra… Mas atenção! A cultura nipónica,nos seus princípios de visão do mundo,dos homens e das coisas, não foi — como não seria nos secs. XVI-XVII e XIX-XX — afogada pelo que veio de fora. A cultura japonesa não imita: digere e faz render o produto desse processo de assimilação. O processo japonês de aculturação é selectivo. O budismo foi recebido na medida em que podia adaptar-se a um sincretismo religioso que, um milénio depois, o cristianismo — pela sua fé monoteísta e a sua própria natureza religiosa e cultural, reflectida pelos seus missionários — não poderia aceitar. Mas também por razões de ordem política:o budismo japonês inspira-se no das dinastias nortenhas da China,  fortemente determinado a proteger o estado nascente e os governantes. (Curiosamente,já noutros campos, como a literatura, a influência chinesa sentida independentemente do budismo veio mais do sul da China…). Hoje ainda, um japonês culto estará consciente da origem e fundo comum da sua cultura com a chinesa,mas sabe que lhe deu outras formas e,transformando-a,lhe conferiu uma identidade japonesa. Para ilustrarmos esse modo de inculturação do que veio da China, temos de falar da escrita e do budismo e respetivas evoluções. O Budismo, que chega da China ao Japão por via da Coreia,é de orientação Mahayana ou Porta Larga — que se afirmou na Ásia central e do nordeste,enquanto a Porta Estreita ou Theravada  florescia no sul e sudeste asiático (Ceilão, Birmânia, Sião, Cambodja,Laos,,,). Percorrendo o itinerário da China e da Coreia, o Budismo Mahayana chega ao Japão com algumas alterações, numa complexidade que se manifesta por diferentes escolas ou seitas,acabando,mais tarde,até por incluir várias formas do Budismo Theravada. De acordo com o Prof. Tamaru Noriyoshi, da Universidade de Tokyo,o que desde logo distingue o budismo japonês é o seu processo de adaptação prática à sociedade japonesa, mais do que qualquer contribuição para o desenvolvimento do pensamento ou filosofia budistas. Como já disse, a introdução do budismo no Japão é indissociável da da cultura chinesa e da escrita,bem como da ideia política do poder imperial. Assim, o budismo, no Japão, confunde-se inicialmente com uma forma de cultura superior que suporta e se apoia num sistema imperial — e o seu processo de aculturação começa no seio da família imperial e da alta nobreza. Só nas eras Kamakura (1185 – 1383) e Muromachi (1336 – 1573)o budismo se propagou por outras camadas sociais. Curiosamente,essa expansão coincide com a do poder militar (samurai ou guerreiros, e shogun ou condestável) e da interferência dos mosteiros budistas no poder secular. Aliás,daí surgirá outra característica marcante do budismo japonês: a sua íntima ligação ao poder político, ao Estado, com as obrigações reciprocas de patrocínio e controle estatal das organizações budistas e,por parte destas,de apoio moral e espiritual ao Estado e percepção de emolumentos. Já na era Nara (710-794),o governo promovia o budismo,mas controlava rigorosamente,através de um abrangente código administrativo e penal,os monges e monjas budistas. Tal controlo será ainda reforçado,depois da interdição do cristianismo,pelo shogunato Tokugawa (1603 – 1868). Um terceiro traço característico  do budismo japonês — sempre de acordo com o Prof. Tamaru Noriyoshi — é o seu fortíssimo laço com a instituição familiar, tradicionalmente considerada a célula fundamental da sociedade japonesa. Pessoalmente, creio que se nota aqui a influência crescente da ética confucionista na era Tokugawa: Confúcio aparece no Japão, já no sec.VI, com a cultura chinesa, a escrita e o budismo, e entre os elementares ideais que propõe está, precisamente, o da solidez intrínseca da família, com o respeito dos anciãos e o culto dos antepassados. Seja como for,com a popularização do budismo, os serviços e ritos funerários japoneses — apesar de todos os esforços do clero shintoísta que, aliás, após a restauração Meiji, irá assegurar esses e os outros ritos religiosos da casa imperial — são ainda hoje quase sempre budistas. No sincretismo religioso japonês casa-se shinto e enterra-se budista. Finalmente, elementos e práticas mágicas, uns originários do budismo tântrico indiano,outros correspondentes a crenças autóctones antigas, marcam o budismo japonês, sobretudo nas seitas Shingon e Tendai,com o uso de símbolos e gestos mágicos.Se podemos afirmar que os elementos tântricos serão originalmente budistas,a maioria das práticas mágicas,parece-me,resulta da propensão nipónica ao sincretismo religioso e da osmose com crenças animistas e shintoístas. Ainda hoje o povo japonês é inata e profundamente supersticioso. Na nossa viagem pelo Japão  —  organizada pelo Centro Nacional de Cultura no âmbito das peregrinações a que chamou “Os Portugueses ao encontro da sua História”  —  visitámos o templo de Horiuji,erigido em 607 pelo Príncipe Regente Shotoku (574 – 622), perto de Nara,a primeira capital budista do Japão, complexo onde até hoje resistiram a terramotos, tufões, guerras e incêndios, algumas das mais antigas estruturas em madeira do mundo, datadas de 670! Já em Nara mesmo, visitámos o Todaiji,cuja edificação foi concluída em 749,por ordem do Imperador Shomu (reinou de 724 a 749), para albergar a estátua gigante do Buda Vairocana,símbolo da grandeza do universo e do poder do estado central. Com a transferência da capital de Nara para Kyoto,iniciando a era Heian (794 – 1160) duas novas escolas do budismo japonês se afirmam: Tendai e Shingon. A maior contribuição de ambas para a futura orientação do budismo japonês foi a da abertura a uma síntese religiosa que abrangeria budistas e não-budistas,ou seja,a fundamentação ideológica da fusão,no espírito japonês,do Budismo com o Shintoísmo, e do correspondente recurso a ritos esotéricos de natureza essencialmente mágica. A era Kamakura (1185 – 1333), que sucedeu a Heian, marca, com o estabelecimento do shogunato (sendo o primeiro shogun da história do Japão, Minatomo Yorimoto,nomeado pelo Imperador em 1192),o início da Idade Média japonesa,em que a autoridade política passa do imperador e da  aristocracia de Kyoto (Heian) para as mãos de uma classe militar em ascensão,donde surgirá a divisão do Japão em senhorios feudais,aos quais,quando ali chegaram na segunda metade do sec.XVI,os portugueses chamariam reinos. Três novas escolas budistas se desenvolveram então a partir da seita Tendai: a da Pura Terra ou Jodo, a Zen e a Nichiren. A Zen surge como inovadora no Japão,mas tem raizes no budismo primitivo: a prática da meditação (dhyana em sânscrito, cha´an em mandarim, zen em japonês) e fora muito divulgada na China da Dinastia Sung (960-1279). O Budismo Zen interessa-nos aqui particularmente pela sua relação com a classe militar dos samurai,em cujo surto assenta o estabelecimento do shogunato e o primeiro período do feudalismo japonês, que se prolongará do início da era Kamakura, em finais do sec. XII, à queda do shogunato Ashikaga e fim da era Muromachi, na segunda metade do sec.XVI,por imposição do general Oda Nobunaga, que dá o sinal de partida do movimento de reunificação do Japão e que privou com os jesuítas portugueses que por lá apareceram nesses tempos.

       

Camilo Martins de Oliveira 

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Comentário sobre “FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

  1. O Japão Imperador da sua cultura riquíssima, igual à nossa Europa do medieval no qual me curvo com o meu respeito. Conseguiram manter a sua cultura monárquica com os direitos sucessórios por linhagens de sangue até aos dias de hoje. Os Jesuítas estiveram lá, muitos foram presos, foram expulsos e aconteceu a mesma situação em Portugal, exatamente igual em monarquias feudais quase semelhantes.

    Portugal não foi capaz de entender a cultura da monarquia, muitos ditos monárquicos revoltaram contra o seu rei, revoltaram e deram o poder ao republicanismo, para estes lhes manterem os status dos patrimónios, mas, aqueles que cuspiram no prato do rei, aqueles que foram condes, viscondes, marqueses, tiveram o desplante em dar o poder ao Republicanismo, deram homens e armas. Os membros do Republicanismo correspondia a 1% da população, aqueles que trocaram de ideais, muitos foram enviados para as colónias e ai foram executados, muitas casas de senhores de suas casas ficaram vacantes, os próprios membros usurpadores do poder em Portugal, mudaram de nomes para manter o status quo quando outros revoltosos o criticavam.

    Muitas pessoas al lerem isto, e falo de pessoas com alguma idade, vão entender que falo a verdade.

    Hoje temos movimentos de causa da monarquia, encabeçados por famílias que não são as originais por sangue, e por todo o direito que me assiste, aquando do novo processo da monarquia se ocorrer, todos esses ditos e supostos nobres de fazer de conta, vão ter que cumprir com todos os dados de ADN para ir cumprir com a verdade, algumas famílias antigas podem não conter restos mortais, mas muitas vem de Infantes portugueses que contem um especifico ADN que conheço muito bem.

    E terão que realiza lo e desmascarar esta afronta contra a monarquia e todas essas ditas famílias se julgam tão importantes na Republica, eu vou arrumar a casa.

    Em fim o Extrado da minha Hitoria acaba , com etaspalavras, pag.2574: Se he verdade, como »/e afirma, que todos aquelles, que defcendem dos Duques de Bragança jeja por machos, Jeja porfemeas, , legitimos, ou naõ, tem hum direito adquirido de /ucce, der na Coroa de Portugal, cada hum conforme o /eu »gráo; he certo, que no Mundo naõ ha Throno mais , firme, que aquelle , e que a prodígio/a individua»çaõ, em que entra o Padre Sou/a, notando, como elle »faz, todas as filiações da Ca/a de Bragança, as mais , apartadas, e as mais indirectas, nada tem de dema»fiada ; porque por e/le meyo, e/le numero infinito de » pretendentes, logo pode /aber/obre que a/ua perten,çaõ /e funda , e em que ordem pode pretender huma , taõ bella fuccefao. Confefo, que me deixou af. , fombrado eta finceridade dos Padres de Trevoux: , Se he verdade, dizem, como /e afirma. E quem po, deria haver afirmado huma femelhante quimera? Seria neceffario fer da ultima credulidade, e fimplicida» de para lhe dar fé. A fuccefaõ ao Throno de Portugal he pelo direito do fangue, regulada nas Cortes » de Lamego do anno de 1143, conforme as Leys de » Lamego, que ali foraõ eftabelecidas, como eu o re»firo no tomo I, da minha Hitoria, pag. 55. E o que , eu tambem efcrevi a refpeito das Cortes do Reyno, » celebradas em 1674, e em 1679, e 1698, e que trago • » IRO » no tomo 7, pag. 677, e no 8. pag. 398, podia abrir ,, os olhos a etes Padres, ainda que o viffèm com , pouca attençaõ, fobre a realidade deta tradiçaõ, », para naõ cahirem no erro de a produzir em humas , Memorias, que devem fervir para a Hitoria das fciencias, e das bellas artes. , Quanto à prodígiofa individuaçaõ, em que eftes Padres dizem, que eu tenho entrado, notam, do todas as filiações da Cafa de Bragança, eu o fiz, , naõ pelo fim, que eles apontaõ; porque antes do , feu Extracto naõ fabia, que houvefè pefoa no , Mundo, que afeguraffè ete modo de fucceder na , Coroa de Portugal pelo direito de defcender da Cafa de Bragança; mas com o fim de cumprir à obrigaçaõ de fiel Genealogita, que he dar a cada hum , o que lhe pertence.

    João Felgar

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