“There is a myth, sometimes widespread, that a person need only do inner work, in order to be alive like this; that a man is entirely responsible for his own problems; and that to cure himself, he need only change himself… The fact is, a person is so far formed by his surroundings, that his state of harmony depends entirely on his harmony with his surroundings.”, Christopher Alexander, The Timeless Way of Building
A cidade pode possibilitar a felicidade das pessoas e ser um meio que garante a liberdade e a tolerância.
Charles Montgomery no livro Happy City. Transforming Our Lives Through Urban Design (2013) argumenta que o lugar onde se vive pode ser transformativo. A cidade pode ser e deve ser fonte de felicidade. A vida pode melhorar mesmo em meios afetados pela recessão económica, se forem alterados formas e sistemas que definem a existência urbana.
Montgomery insiste que a cidade tem de ser desenhada em benefício de todos. Equidade e acessibilidade desempenham um papel muito importante na felicidade de uma pessoa que vive na cidade. Todos precisamos da cidade, dependemos dela para viver. É importante, explica Montgomery, afirmar uma cidade que:
- funciona em rede e tem transportes públicos eficientes – o mais longínquo subúrbio tem de estar ligado ao resto da cidade;
- mistura uma variedade de funções e formas;
- tem constante contacto com a natureza – espaços verdes, parques, árvores, água, hortas;
- e não exclui.
Uma cidade só poderá ser verdadeiramente democrática se for inclusiva e global. As pessoas mais pobres e vulneráveis precisam das mesmas oportunidades que as pessoas mais ricas. E as pessoas que vêm doutros países são uma grande oportunidade para reinventar e enriquecer a vida urbana. De maneira a garantir complexidade, pluralidade, riqueza cultural, diversidade e inclusão social, todas as etnias, géneros, orientações sexuais, idades, religiões, nacionalidades, pessoas com diferentes rendimentos e pessoas com diversas condições físicas e mentais deveriam estar envolvidas no desenho das nossas cidades.
Montgomery afirma que as cidades e os seus espaços atuam diretamente sobre a vida das pessoas. Na verdade, sentimentos de pertença são acima de tudo influenciados primeiramente pelo contacto social. Para que uma cidade possa ser ativa socialmente, explica Montgomery, tem de promover a confiança entre as pessoas e garantir o bem-estar de cada um. Não pode ser, por isso só pensada para e por um conjunto restrito de pessoas e não pode estar à mercê do poder económico. Um ambiente urbano socialmente eficaz tem de eliminar diferenças.
Curiosamente, Montgomery demonstra que as pessoas precisam da interação física e do convívio para serem mais altruístas, compassivas e tolerantes. Montgomery explica também que o contacto social não pode ser forçado e funciona melhor se for espacialmente limitado e contido – porém as comunidades e os lugares muito fechados e homogéneos não oferecem oportunidades para todos. Por exemplo, Christopher Alexander no livro A Pattern Language. Towns. Buildings. Construction (1977) escreve que numa praça o meio é raramente utilizado, as bordas constituem uma importância espacial muito mais relevante. É aí que se desenvolvem as primeiras atividades que promovem interações entre as pessoas. As pessoas desejam andar a pé e sentem-se mais seguras se nas ruas houver movimento, se existirem lojas e se as fachadas se abrirem para o espaço público. As fachadas cegas e intermináveis não promovem espaços urbanos sociáveis.
A paisagem urbana tem de ser, então, diversificada de modo a apresentar variadas opções para pessoas de diferentes idades e rendimentos. A diversidade introduz vida variada na cidade – o que significa que poderão existir pessoas a circular pelas ruas em horários diferentes, o que torna a cidade mais segura e mais feliz.
A cidade tem de ser feita por uma variedade de espaços cheios e espaços vazios.
Montgomery esclarece que os ecossistemas e as paisagens mais diversas e complexas devem ter uma presença mais relevante na vida das pessoas. O seu impacto psicológico é maior do que um perfeito relvado a perder de vista ou uma praça monumental vazia. Montgomery sugere que uma maneira de alcançar, por exemplo, a complexidade biológica nas cidades poderia passar por deixar os espaços verdes tornarem-se verdadeiramente selvagens ou talvez tentar plantar e cultivar intencionalmente complexidade. Segundo Montgomery, para uma vida urbana feliz é crucial, não a quantidade, mas sim a exposição regular à natureza. Portanto, o segredo está em encontrar formas de integrar a natureza e a sua complexidade em locais urbanos mais densos.
No seu estudo, Montgomery verificou igualmente que o legado das cidades modernistas de elevada densidade falhou nos testes de complexidade – os espaços entre os blocos de habitação social do século passado são verdadeiros desertos. Montgomery escreve que aos habitantes de uma cidade não podem ser negados simples prazeres do dia a dia: como por exemplo passear pelas ruas, sentar-se em locais públicos, conversar, observar os espaços verdes, a água, as folhas que caem e as outras pessoas que passam. Por conseguinte, para que um ambiente urbano possa ter vida e promover a felicidade será necessário haver uma multiplicidade de espaços, escalas e formas e conter os seguintes elementos: ruas e passagens curtas e longas, estreitas e largas, sinuosas e retas; edifícios grandes e pequenos, compridos e estreitos; atalhos; arcadas; túneis; praças de diversos tamanhos e feitios; cruzamentos; diferentes níveis; água; sombra; árvores; parques e jardins com ecossistemas complexos; estátuas; entradas e saídas; escadas; portões; bancos; vistas inesperadas; densidades diversas; esvaziamentos; reflexos.
Sendo assim, uma cidade só pode promover a felicidade se for feita por todos, através de um processo participativo e democrático, para todas as pessoas, e deverá promover o encontro, facilitar a mobilidade, ter espaços verdes e misturar diversas funções e formas. A cidade tem de ser um meio facilitador para um modo de vida. Certas experiências e especificidades que complicam e dificultam a vida devem ser reduzidas e eliminadas, de modo que a cidade possa abrir horizontes maiores à existência de cada pessoa.
Ana Ruepp