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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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HISTÓRIAS MUÇULMANAS SOBRE JESUS E O ESSENCIAL

 

1. No Evangelho, Jesus faz apelo ao essencial: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”, a sua vida, o essencial? Por isso, o amor a Deus e a avareza são inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e à riqueza.

Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos).

Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza, recebendo o justo lucro. Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza. E fê-lo, por dois motivos fundamentais. O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade. O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno. Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre: lembremo-nos da terrível história contada por Jesus sobre o rico que se banqueteia enquanto o pobre Lázaro jaz para ali abandonado. Com a pandemia, segundo o último relatório da Oxfam, os 10 mais ricos do mundo duplicaram a sua fortuna e as desigualdades contribuem para a morte de pelo menos uma pessoa a cada 4 segundos… Face a esta situação explosiva, impõe-se tomar consciência de que é urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres. Se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno…

O outro motivo para Jesus açoitar o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa. A dignidade de ser Homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino, “a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza”, e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade. Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento, já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa. De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e deixa-se corromper; se for preciso, mata, corrompe, compra gente, escraviza, faz a guerra… Já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas. Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.

No seu aviso, Jesus é frontal: “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e a Dinheiro” — deve-se escrever com maiúscula, pois Jesus referia-se a Mamôn, uma deusa. Não se pode server a Deus, Pai/Mãe que quer a dignidade e a realização de todos, e a Mamôn.


2. Neste contexto, chamo a atenção para duas belas histórias, que vêm do islão, precisamente sobre este tema.

O amor e o respeito por Jesus são uma presença constante na literatura muçulmana. Tarif Khalidi, director do Centro de Estudos Islâmicos e membro do conselho directivo do King’s College (Cambridge), reuniu em livro — Jesus Muçulmano – as chamadas “máximas e histórias de Jesus”, onde se encontram várias alusões aos Evangelhos. Uma delas diz assim, em síntese: 

Um homem juntou-se a Jesus, dizendo: “Quero ser teu companheiro.” Seguiram viagem e, quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Jesus foi ao rio beber água. Como, no regresso, não encontrou o terceiro pão, perguntou ao homem: “Quem tirou o pão?” Ele respondeu: “Não sei.”

Continuaram viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Voltou-se das duas vezes para o companheiro, dizendo: “Em nome d’Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?” “Não sei”, tornou a responder o homem.

Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus fez um montinho de terra e areia e disse-lhe: “Com a permissão de Deus, transforma-te em ouro”, e assim aconteceu. Então, Jesus dividiu o ouro em três partes e disse: “Um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão”. Aí, o companheiro disse: “Fui eu que tirei o pão!” Jesus disse: “O ouro é todo teu.”

Jesus continuou sozinho o seu caminho. Entretanto, chegaram dois salteadores que queriam roubar o ouro ao antigo companheiro. Este, porém, disse: “Vamos dividi-lo entre os três e um de vós vai à cidade comprar comida”. Um deles foi à cidade e pensou: “Porque hei-de dividir o ouro com estes dois? Vou antes envenenar a comida e ficar com o ouro para mim!” E comprou comida, que envenenou.

Por sua vez, os que tinham ficado disseram: “Porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso vamos é matá-lo quando regressar e dividimos o ouro entre os dois.”

Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida e também morreram. O ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado.

Aconteceu que Jesus passou por ali e ao ver aquela miséria disse aos discípulos: “Assim é o mundo. Tende cuidado.”

De outra vez, Jesus passou por uma caveira apodrecida. Ordenou-lhe que falasse. E ela disse: “Espírito de Deus, o meu nome é Balwan ibn Hafs, rei do Iémen. Vivi mil anos, gerei mil filhos, desflorei mil virgens, destrocei mil exércitos, matei mil tiranos e conquistei mil cidades. Que quem ouve a minha história não se deixe tentar pelo mundo, pois tudo isso foi como o sonho de um homem adormecido.” Jesus chorou.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de fevereiro de 2022

3 comentários sobre “HISTÓRIAS MUÇULMANAS SOBRE JESUS E O ESSENCIAL

    1. A origem da Igreja Catholica e do Alcorão, é a mesma, e não é com Jesus Christo, não. A cathólica vem dos Catharos da Alexandria. Mas o povo não sabe e inventa

      Christen WORM (Bishop of Zealand.) · 1696
      ( 1 ) Dionysius Exiguus ita hujus Canonis sensum reddit , 5 ) De his , qui se ita nominant Catharos , id est mundos , si aliquando venerint ad Ecclefiam Catholicam .

      Ecclefiam Catholicam, ftatuere Alexandrinam Synodum , &, ni valde fallor, pro me facit prisca canonum colle, etio Latina, quam Bibliothecæ Canonicæ inicruerunt Justellus & Voellus. De Paulianistis, qui refugiunt ad Catholicam & Apostolorum Ecclefiam, decretum eft,cos omnino rebaptizari

      Portuguese India · 1865
      … senão uma luz no fosse máo ( 19 ) . mundo , que esclareça todos os homens , que vem a elle , nos O Mahometismo com … nem ligião ; e esta auctoridade é a Egreja Catholica , coluinna e tem a mesma origem , que o Alcorão . fundamento …

      Está conforme. Secretaria da junia da fazenda, pu- verdade da religião, mas ensina-se com a persuasão, e com hlica, 29 d’agosto de 1865.- escrivão vogal interino, exemplo (18). João Joaquim d’Oliveira Nogár. Tambem não Nos esquecerá dizer-vos, Meus Filhos em Jesus Christo, que o mesmo Apostolo S. Paulo recommendava ARCEBISPADO DE GOA.aos habitantes de Thessalonica, que examinando todas (Continuação da pastoral do numero antecedente). as cousas com grande cuidado, seguissem ou obrassem, só o o que achassem bom, devendo abster-se de tudo, quanto Na ha, Meus filhos em Jesus Christo, senão uma luz no fosse máo (19). mundo, que esclareça todos os homens, que vem a elle, nos O Mahometismo com o alfange em o alfange em punho pôde ganhar verdadeiros caminhos da salvação eterna ; e esta luz é muitos proselytos na Asia, na Africa, e na Europa tambem; a Egreja Catholica pelo ensino da sua doutrina, que é mas o Christianismo annunciou-se, estabelleceu-se, consera doutrina de Jesus Christo ( 14 ). Não há senão uma au- vou-se em toda a parte só com a prégação da palavra de ctoridade sobre a terra, cujas decisões tenham o cunho da Deos. Divindade, e sejam infalliveis no ensino das verdades da Re

      Os povos tão pie losos das In lias Orientaes, e que depois Folheai a historia dos seculos, percorrei as nações da de tantos annos, e de tantas vicissitudes ainsa hoje escutam terra, vós não encontrareis nem harmonia de ensino, nem attentos á vóz do Pontifice Romano, e submissos obserram as concordia de opiniões, nem unidade de forma. En Lisboa leis da Egreja Catholica; por ventura terão sido convertidos pensa-se de um modo differente, que em Madrid; em Ma- á fé, e trazidos á luz do Evangelho pela força ou pela viodrid pensa-se d’um modo differente, que em Paris ; em Palencia? Não. Ter-se-hião elles sentado ao esplendido banris pensa-se d’um modo differente, que em Londres; em Lon- quete da civilisação christãa, se os Missionarios Portuguezes , dres pensa-se d’um modo differente, que em Vienna d’Ausale de outros paizes da Europi, nào uzasse.n da liberdade de tria; em Vienna d’Austria pensa-se d’un modo differente, que fallar, de ensinar, de exercer o seu ministerio sagrado em em Berlim ; em Berlim pensa-se d’un modo differente, que to lo o Intlostão, e fóra delle ? Não. Q1e serieis vos hoje, em Florença; e em Florença pensa-se hoje d’um modo muito Meus Filhos em Jesus Christo, se do extremo do Occidente, differente, que em Roma.não tivessem vindo tantos e tão famosos obreiros do Evan0 Imperador Agrippa fez construir na capital do imperio gelho prógar e en:inar doutrinas religiosas inteiramente opRomano um Templo para collocar nelle todos os deoses do postas aquellas, que pre lominavam nestas tão longinquas paganismo; mas qual seria hoje o Principe Soberano, que ou paragens do Oriente ?

      Church of England, ‎William Keatinge Clay · 1851
      Erat autem scriptum : Jesus Nazarenus , rex Judæorum . Hunc ergo titulum multi Judæorum legerunt , quia prope civitatem erat locus , ubi crucifixus erat Jesus . Et erat scriptum Græce , Latine , et Hebraice

      Richard Montagu · 1642
      Thirdly , the Limitation of that subject two wayes confined , upon Abraham , upon David . … In the Crosse of our Saviour , there was a Title written , Iesus Nazarenus Rex Iudæorum , Jesus of Nazaresh King of the Jews ; It was …

      João Felgar

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