Bem se pode dizer que João Osório de Castro é uma figura atípica do teatro português. Pela dramaturgia em si mesma, pela ação e iniciativa no meio teatral português, mas também, ainda, pela forma como conciliou essa atenção e vocação pelas atividades do teatro, com uma vida empresarial em áreas bem distintas e bem definidas da indústria e do comércio. E sempre numa base de cultura e de qualidade.
Vejamos em primeiro lugar o dramaturgo
João Osório de Castro escreveu para cima de 15 textos , quase todos representados em teatros e na televisão. E desde logo se diga que esta dramaturgia consistente e coerente se desenvolve a partir de expressões dramáticas variadas na perspetiva de géneros, épocas e estilos .
Estreou-se como dramaturgo em 1961 com um grande fresco histórico, “D. Henrique de Portugal”, onde recria a expressão histórica com sentido literário e dramático desde logo assinalado no espetáculo do Teatro Nacional de D. Maria II. E o que sobretudo assinalamos é a capacidade inovadora num tema e num estilo em que uma menor qualidade correria o risco de um retoma do teatro histórico para-realista, vinda diretamente do romantismo, e que foi dominante em certa dramaturgia portuguesa já no seculo XX.
Mas no ano seguinte, e ainda no Teatro Nacional, Osório de Castro estreia “Os Blusões Negros”, comédia dramática que retrata certo ambiente social muito típico da época. E esta alternância de estilos , de épocas e de linguagem caracterizará a sua dramaturgia, ao longo de cerca de 15 títulos, quase todos representados, e que perfazem um percurso dramatúrgico que percorre estilos géneros e épocas diversas.
Citam-se peças como “A Primeira Espingarda do Japão” (1973), “A Paixão Segundo Santo António” (1995), “D. João II” (1997-1998), “Garrett – Teatro” (1999) e, noutro estilo e noutro género, peças como “ Lux Lucis” (1999), “Cabeçudos e Gigantones” (2000), “A Giraldinha” e outras mais, em parte inéditas.
Mas saliento então “O Baile dos Mercadores” (1965), em que Luis Francisco Rebello reconhece a “ saborosa invenção e especificamente teatral feita de humor e poesia”.
De assinalar que a peça “Viriato Rey” (1970) é posto em cena em 2006 por João Mota no festival do Teatro Clássico de Mérida.
E finalmente: “O Magnifico Barbeiro” foi “transladado” para o português do sertão baiano e representado em Salvador com o titulo “Barbeiro Caba Bom”!…
Ora bem: “O Baile dos Mercadores” foi encenado em 1970 por Augusto de Figueiredo, no Teatro da Estufa Fria. Escrevi na altura uma critica do espetáculo no Jornal Português de Economia e Finanças importante revista económica da época. Transcrevo uma parte do artigo, pois nele se realçam aspetos “económicos e empresariais” da peça, adequados á obra deste dramaturgo que era também um empresário de relevo, diretor da AIP:
“O Baile dos Mercadores traça-nos uma dialética conflitual de que o dinheiro – ou a sociedade de consumo, como hoje se diz – é nervo motor. O dinheiro, a ânsia de lucro e a ganância da luta empresarial perpassam no hábil encadeados de cenas”… e a analise prossegue nesta convergência do teatro e da atividade empresarial,..
É altura de assinalar que, para alem da sua expressão dramatúrgica, João Osório de Castro surge em 1962, com Fernando Amado, diretor da Casa da Comédia. Também dirigiu outas salas: mas já aqui referimos a importância decisiva da Casa da Comédia e citamos agora o Teatro de Todos os Tempos, também iniciativa de João Osòrio de Castro, relevantes na renovação do teatro português, a nível de espetáculo mas também a nível da dramaturgia.
Em suma: como noutro lado escrevi , estamos perante “uma obra dramatúrgica que oscila com interesse entre textos de raiz histórica narrativa, comédias, teatro infantil e textos de expressão popular”.
DUARTE IVO CRUZ
