“AO ENCONTRO DA MAGIA DA INFÂNCIA”
No CNC estiveram ontem Luísa Ducla Soares, Ana Maria Magalhães e António Torrado para evocar a memória de Matilde Rosa Araújo no Jornal Falado “Ao encontro da magia da infância”. Sócia efectiva do Centro Nacional de Cultura e grande amiga de há muitos anos, Matilde Rosa Araújo é uma das grandes referências da cultura portuguesa. Foi uma escritora sobretudo para crianças e jovens, apesar de ter cultivado todos os géneros literários, destacando-se pela sensibilidade e inteligência. Educadora exemplar de toda a vida e defensora pioneira dos direitos das crianças.
Aqui fica o texto lido por Luísa Ducla Soares na sessão de ontem:
MATILDE, QUERIDA MATILDE
Pedem-me para falar sobre Matilde Rosa Araújo e eu não consigo destrinçar a amiga, a mulher, da escritora.
Por isso vou recordar também um percurso de vida que virou literatura, tornando-se marco incontornável das nossas Letras, utilizando, sempre que possível , as suas próprias palavras.
“Nasci numa quinta em Benfica, no meio de árvores, flores, fontes, animais – natureza viva que me seduzia. Perto do Jardim Zoológico. De noite ouvia o gemer dorido dos leões, dos tigres, do elefante e de outros animais que não identifico: eram “vozes” de animais presos. Vozes de grades . E gritos de aves estranhas. Ficava acordada para os ouvir, não sei porquê. E doíam-me . Não seria já o “gosto amargo de saber” (que não tenho) mas a inconsciente busca de um mundo próximo e livre. (…)
Não frequentei nenhuma escola. Quantas vezes subi para o telhado de casas onde vivia para olhar os meninos que iam para a escola”.( entrevista ao JL tirada da Internet)
Para se evadir daquele recinto fechado lia, lia, lia.
Terminado o liceu, sempre com professores particulares, ingressou na universidade, no curso de Românicas onde teve o privilégio de ter como condiscípulos Sebastião da Gama, David Mourão Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Judite de Carvalho. Foi o facto de ter vencido um concurso literário promovido pelo jornal O Século que a levou à estreia precoce, com uma novela para adultos, A Garrana.(1943)
Enveredando pela carreira do ensino (a partir de 45) foi colocada em escolas técnicas de Lisboa, Barreiro, Almada, Portalegre, Elvas, Caldas, Porto, regressando finalmente a Lisboa. Essa experiência foi crucial:
“A infância encontrou-me quando comecei a ensinar. Encontrou-me e continuou comigo no deslumbrado acontecer das aulas, deslumbrado e receoso de não saber comunicar. E fui aprendendo, tentando aprender o segredo da infância, da juventude, descoberta viva de todos os dias ”. ( mesma entrevista ao JL )
A relação professora – alunos está subjacente à sua obra.
“Eu ensinava numa escola velha, escura. (…) A escola era muito triste. Feia, Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida. Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. (…)
Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter consciência de que a aprendia. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. (…) Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. ”
Há um poema muito singelo e bonito em que nos apresenta a escola, que gostava de vos ler:
Meninas que estais estudando
Numas banquinhas pequenas:
Lá fora o sol vai dourando
Os riscos das vossas penas.
Meninas que estais sorrindo
Numas banquinhas sentadas:
Lá fora flores vão abrindo
Com as vossas gargalhadas.
Meninas que estais sonhando
Numas banquinhas de pinho:
Lá fora canta, chamando,
O canto dum passarinho.
Ó mestra que estás falando
Em cadeirinha tão calma :
Lá fora o Sol vai dourando
As penas que tens na alma.
(O livro da Tila)
Como Cecília Meireles, lutou para retirar à literatura infantil o estigma de menoridade, mostrando que escrever para crianças é como escrever para adultos, só que com mais responsabilidade.
São principalmente os meninos de pés frios, pobres, desafortunados que povoam a obra de Matilde. Alguns, como Joaquim, o rapazito abandonado que conheceu, a vender moinhos na praia de Cabedelo, como Zé Manel de Porto Santo que nunca teve um brinquedo, outros anónimos, perdidos na multidão de gente indiferente aos dramas da infância.
Evoca essa infância logo no poema introdutório de O Livro da Tila:
Meninas pobres, tão pobres,
São tão pobres, que ao vê-las,
Meus olhos, que são de cobre,
Têm a luz das estrelas!
ou neste poema de Mistérios, que reflecte uma realidade bem actual:
Ó meu menino da rua
Só, com uma chave na mão:
Quem é que brinca contigo?
Quem é que pede perdão?
As suas preocupações sociais são tão presentes que a autora tem sido associada ao neo-realismo. Mas rotula-la de neo-realista é decerto truncar a riqueza e complexidade da sua escrita, a que não é alheio o classicismo da Távola Redonda, de que foi colaboradora, e que se encontra igualmente impregnada de muitos saberes, e do gosto assumido pelas tradições populares, a que repetidamente recorre:
Ó cuco lá da roseira,
Quantos anos faltam
P´ra deixar de ser solteira?
Ó cuco lá do pinhal,
Quantos anos faltam
Pró meu enxoval?
Ó cuco lá do pomar,
Quantos anos faltam
Pra me eu casar?
E escondi, nas mãos,
A luz do meu rosto
E fiquei à espera;
E o cuco cantou
Uma vez só:
Primavera!
A característica mais marcante de Matilde é certamente a afectividade, a doçura e ternura com que envolve todos os temas, mesmo os mais agrestes. Há nela uma delicadeza de sentimentos rara, que se expressa poeticamente, até nos textos em prosa. A sua amorosa gentileza é como uma oferenda de flores.
Uma dicotomia de tristeza e alegria, de dor e encantamento perpassa os seus textos. Porque afinal, o mundo dos mais novos , para quem realmente o conhece, não é o paraíso.
Para ela todas “todas as crianças são poemas que nos dizem que a vida tem Sol, Amor, Alegria, flores, água que corre nos rios, que se levanta nos mares em ondas vigorosas. E neve, e chuva, aqueles dias em que, por detrás dos vidros, parece vermos o tempo correr” (O Sol e o menino dos pés frios, p. 43).
Todas as crianças brincam e sonham por isso Matilde se debruça sobre os brinquedos: o cavalinho de pau, o pião, o ferrinho de engomar, o baloiço, o rapa, tantos outros, principalmente sobre as bonecas. As luxuosas e um pouco distantes bonecas que vieram de Paris, como a Januária, as que foram feitas por mãos pequeninas com bocadinhos de trapo, até as improvisadas com uma papoila silvestre.
Matilde desvenda mistérios e sonhos de bebés, garotos e adolescentes, sonhos que nem sempre se conseguem concretizar:
É LINDA
— Quer esta seda verde, minha menina ?
— É linda !…
— Quer um corte, minha menina ?
— É linda !…
— É para um vestido, minha menina ?
— É linda !…
— Quantos metros quer, minha menina ?
— Quantos metros de mar ?
Quero a peça inteira !
Mas não a posso comprar…
E é linda !…
(O cantar da Tila)
Mas não esquece também a velhice, que significa apenas “ter vivido mais”, emprestando-lhe colorido, beleza e alegria. Quem pode esquecer a D. Balbina com seu chapéu sempre enfeitado de cerejas, que continua a tecer projectos pois nunca é tarde para sonhar?
Há um franciscanismo patente em quase todos os seus livros. Os elementos da natureza irmanam-se com esta mulher tão sensível que compreende a língua das formigas, do louva-a-Deus, do grilo, dos sapos. Que tem como companheiro de solidão um cão:
“A meu lado, sentava-se o grande cão que, durante o ano, estava só, entre aqueles muros. Era o Top.
Castanho, de olhos mansos e bons.
Top, de vez em quando, batia-me no braço, no livro.
Como se me dissesse:
— Estou aqui. Lembra-te que existo.”
(O Sol e o menino dos pés frios)
Quantos outros poetas terão feito uma ladainha a uma aranha?
Aranha, anha
Tão muda e mole:
Teu fio de Lua
Soluça ao Sol.
Aranha, anha,
Que ninguém ama:
Teu fio de Lua
É a tua cama.
Aranha, anha,
De noite e dia
Teu fio de Lua
Ninguém o fia.
Aranha, anha,
Que o mundo mata:
Teu fio de Lua
Ninguém desata.
(O livro da Tila)
Mais que isso, há uma vivência cósmica da vida. O Sol, a Lua, as estrelas andam em perpétua rotação nas suas páginas. As cores escorrem directamente do arco íris.
A musicalidade da poesia de Matilde levou Lopes Graça a transformar os poemas do Livro da Tila em belíssimas, inesquecíveis canções. A escritora, que praticamente concluiu o curso de piano, vibra com os sons. Apaixonada de Beethoven, não se inibe de tocar as cordas da Guitarra da boneca :
Chuva de cordas brancas,
Chuva de cordas frias.
E eu tenho uma guitarra
Cigarra
De som molhado
Que agarra a alegria
Para tocar.
E minhas mãos
Para enxugar
Teu rosto amado,
Minha mãe.
Nos seus poemas e contos cantam meninos e rouxinóis, trinam os grilos, piam os passarinhos, o Senhor Galo ergue a sua voz vibrante como uma fita vermelha.
Ela própria nos conta um triste percalço a que o amor pela música a levou. Ao ouvir um tango, há uns anos, não resistiu e pôs-se a dançar sobre uma só perna, rodopiando como a papoila-boneca do seu conto. Caiu, sofreu uma fractura que a obrigou a utilizar uma bengala. Mas nem assim a “fada Matilde”, como Letria lhe chama, se deixou abater ou perdeu o gosto de cantar. Uns dos seus mais belos versos são justamente os que dedicou a essa nova companheira:
Minha bengala fininha
Tronquinho de cerejeira
Ajudas o meu andar
És a minha companheira.
Prendo-te com minha mão
Num afago que te dou
Nossa conversa é tão muda
Como um filme de Charlot
Falamos ambas da vida
Do tempo em que eu corria
Tu eras um tronco verde
Primavera que nascia
Charlot às vezes sorri-me
Entre a mão e a bengala:
Tronquinho de cerejeira
Também tem a sua fala.
Tanto e tanto haveria a dizer sobre a nossa querida Matilde. Podería falar das cuidadas antologias sobre a infância que nos deixou, do seu empenhamento nos direitos da criança, sobre a sua mestria de cultora da língua portuguesa, sobre os aspectos didácticos e lúdicos da sua obra, sobre o seu exemplo de cidadania. Etc, etc, etc.
Mas aqui e agora , neste dia que lhe é dedicado, não estando a nossa Fada mais entre nós, não posso ignorar a saudade que nos deixou. A sua obra vai perpetuá-la e a melhor homenagem que podemos fazer-lhe é lê-a com a paixão com que ela escreveu.
Luísa Ducla Soares
