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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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José Santos González Vera, o escritor chileno

 

Prémio Nacional de Literatura em 1950

apenas com a publicação de dois livros:

Vidas mínimas (1923) e Alhué (1928)

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Um dia olhei para um livro muito especial que não deixei na livraria. Tratava-se de uma análise do estilo de escrita de José Vera feito por Ester Ljungstedt, numa edição da “Insula” – Madrid 1965.

Esta edição referia expressamente a assunção do Instituto Ibero-Americano de Gotemburgo (Suécia) fundado em 1939, e cuja finalidade era a de fortalecer as relações culturais entre o povo sueco e os povos de língua espanhola e portuguesa. Assim, achei ter encontrado neste livro que recomendo, uma clara ajuda à minha sugestão de se conhecer melhor a escrita de José Vera.

Na verdade, no seu percurso como escritor, José González Vera contacta amiúde com o jovem Pablo Neruda, bem como com a poeta Gabriela Mistral igualmente chilena e agraciada com o Nobel da Literatura de 1945, aliás, primeiro escritor latino-americano a receber essa honra, na altura em que ela era membro do corpo diplomático chileno. Curiosamente esta escritora, movida por um profundo sentimento religioso, não deixou de influenciar o jovem anarquista José Vera que muito soube como se não levar a sério, permanecendo fiel a um certo humor na sua peculiar forma de estar na vida, quase infantil.

A Sociedade de Escritores chilena abriu um estafado debate contra a atribuição a José Vera do Prémio Nacional de Literatura, dizendo mesmo que “Sus obras completas caben en un cuaderno de composición escolar”

Encontrei na leitura de “Vidas mínimasuma capacidade de análise da realidade, invulgar de José González Vera. Retrata ele de algum modo a sua experiencia de vida de jeito literário hábil e intimista, não descurando a vida dura que suportava, mas em vez de optar pela lamentação, olha a realidade tirando-lhe o pulso minuciosamente e estuda-a sem repugnâncias ou ódios, apesar de descrever com detalhes as injustiças claras que o homem enfrentava em terras que nunca se transformariam em paraísos, ou os donos de mundo responsáveis por uma perversidade quase contemplativa e carinhosa não aceitassem impor vidas miseráveis a outros homens.

Julgo também ter encontrado em José González Vera, um rebelde e um sonhador emotivo, mas que consegue dominar as emoções com o sorriso da ironia no livro “Cuando era muchacho”. Surge, aliás, o silêncio neste livro e na escrita de José Vera como sinónimo de paz e simultaneamente tem um papel de sonoridade indispensável ao raciocínio de Vera.

Diga-se que esta análise de Ester Ljungstedt ao estilo de González Vera, consegue trazer-nos uma clareza acerca da importância do tal silêncio que atravessa a obra deste escritor, quando apenas com dois livros lhe é atribuído o Prémio Nacional de Literatura. Não soube dizer a razão pela qual me senti atraída pela escrita de Vera. Seguramente que este livro de Ester Ljungstedt muito esclarece do quanto a quantidade de escrita não definirá nunca a sua qualidade.

 

Teresa Bracinha Vieira
Fevereiro 2016

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