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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XVII) CARTILHA MATERNAL DE JOÃO DE DEUS

 

Nesta nossa peregrinação em busca das melhores coisas portuguesas, vimos do Monte da Caparica, onde encontrámos Bulhão Pato, e agora damos um salto até ao Algarve, mais concretamente a S. Bartolomeu de Messines, para invocar a memória de João de Deus e da sua extraordinária “Cartilha Maternal – ou Arte de Leitura”. Relacionamos dois amigos que se admiravam mutuamente. Poderíamos invocar o grande poeta que João de Deus foi, mas preferimos o pedagogo. Uma breve nota para dizer que, estudante de Coimbra, João de Deus se dedicou mais à lírica e às canções do que ao estudo das sebentas – e o resultado foi que a sua passagem pela Lusa Atenas se traduziu em dez anos, tantos, como ele sempre lembrou, como os da guerra de Tróia.

João de Deus nasceu em 8 de março de 1830, filho de Isabel Gertrudes Martins e de Pedro José dos Ramos, era o quarto de catorze irmãos, estudou latim na sua terra natal e ingressou no Seminário de Coimbra. Em 1850, aos 19 anos de idade, entrou na Universidade para estudar Leis. Envolvido na vida boémia, teve um percurso académico conturbado, com interrupções e reprovações por faltas. Mas, logo em 1850, revelou dotes poéticos, escrevendo versos que circularam manuscritos no meio académico. São de 1851 o poema Pomba e a elegia Oração, logo reconhecidos e ganha reputação como poeta lírico. Em 1858 tem uma crítica fortemente elogiosa A propósito de um Poeta, publicada no Instituto por Antero de Quental. Terminado o curso, fica em Coimbra, com pouca advocacia e alguma poesia, de carácter satírico. Escreve A lata (1860, primeira obra autónoma) e A Marmelada. Em 1862 aceita ser redator de “O Bejense”, colaborando na imprensa regional do sul. Regressa a Messines em 1864, onde redige a Folha do Sul, optando em 1868 por partir para Lisboa. Para sobreviver faz traduções, escreve sermões e hinos para cerimónias religiosas, além de colaborações literárias várias. Por insistência de amigos, apresenta-se às eleições gerais de março de 1868 (ano da janeirinha) como candidato independente pelo Círculo de Silves, saindo vitorioso, apesar de combate renhido e de um desempate. Sobre o Parlamento disse ao “Correio da Noite” em 1869: “Que diacho querem vocês que eu faça no Parlamento? Cantar? Recitar versos? Deve ser gaiola que talvez sirva para dormir lá dentro a ouvir a música dos outros pássaros. Dormirei com certeza!”. Regressado à vida civil torna-se um poeta reconhecido, publicando “Flores do Campo” (1869) e depois, por Teófilo Braga, “Campo de Flores” (1893), celebrada antologia.

Em 1876, menos de um ano depois da morte de António Feliciano de Castilho e perante a perda de influência do método de leitura criado por este, João de Deus envolve-se na campanha de alfabetização, escrevendo a “Cartilha Maternal”, um novo método de ensino da leitura, que o haveria de distinguir como pedagogo, revendo o método de Castilho e considerando os contributos de Pestalozzi e Froebel, dando-lhes um carácter de maior consistência e maturidade, graças à consideração do ritmo poético. Herculano, pouco antes de morrer e Adolfo Coelho consideram o contributo excecional. O método, bastante inovador, foi dois anos depois, e por proposta do deputado Augusto Portugal Ribeiro aprovado como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa. Graças a esta decisão, João de Deus teve nomeação vitalícia como “Comissário Geral da Leitura”, morrerá em 1896. Mercê do mecenato de Casimiro Freire (1882) e do empenhamento do filho do poeta, João de Deus Ramos, na Associação de Escolas Móveis (1908), com o apoio de João de Barros, cria-se, a partir de 1911, a rede de Jardins-Escola João de Deus (sendo o primeiro em Coimbra) com influência decisiva até aos nossos dias.

E a perenidade do sucesso deve-se ao seu fundamento poético e artístico!

 

GOM

8 comentários sobre “MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

  1. MISÈRE

    Era já noite cerrada…

    JOÃO DE DEUS

    Il était déjà nuit brune:
    «Mère, dit l’enfant, voici
    Une voûte; par fortune,
    Nous pourrons coucher ici.»

    La vieille aveugle, invalide
    A force d’avoir trimé,
    Aux paroles de son guide,
    Se sent le cour ranimé.

    Mais deux chiens qui hurlent ferme,
    Deux lions, – ardents et prompts,
    Gardent la cour de la ferme,
    Pour éloigner les larrons.

    Ils reprennent donc leur route,
    Les pauvres gens…
    Où passer ?
    Auprès du château sans doute,
    Où le roi s’en va chasser.

    Et l’aveugle à demi morte
    Entend l’enfant qu’elle suit :
    «Là, sous l’abri d’une porte,
    Nous pourrons passer la nuit. »

    «Mais les chiens ?» répondit-elle,
    En souriant tristement…
    Tout-à-coup, la sentinelle
    Crie: «Au large ! et lestement!»

    Et tous deux, dans la déroute
    De leur espoir toujours vain,
    Se couchèrent sur la route
    Pour attendre le matin.

    ACHILLE MILLIEN

    JOÃO DE DEUS

    ESCORÇO BIOGRAPHICO

    A POESIA portuguesa da geração actual não pode ser bem comprehendida sem se definir a acção que João de Deus exerceu no gosto e nas vocações dos novos talentos; tambem o seu lyrismo, que ha tantos annos traz enlevada esta sociedade sem paixões, só hade ser avaliado atravez dos traços biographicos da sua serena personalidade. As particularidades anecdoticas da vida, que são, em um ponto de vista mais alto, a relação do escriptor com o meio em que pensa e actúa, são aqui a funcção por onde remontamos á intelligencia da sua obra.

    Continuação…

    João Felgar

  2. Na pequena povoação de Sam Bartholomeu de Messines, nasceu João de Deus, em 8 de Março de 1830; seu pae, Pedro José Ramos, commerciante, era dotado de uma actividade infatigavel, em harmonia com o temperamento irascivel modificado por um espirito de justiça; sua mãe, Isabel Gertrudes Martins, era a bondade em pessoa, a mater dolorosa, que viu morrer sete filhos, uns ainda crianças e outros ao nascer. De outros sete filhos que sobreviveram, João de Deus foi o quinto; herdou do pae a austeridade inquebrantavel de caracter e firmeza no seu ideal, e de sua mãe essa bondade insondavel que lhe revelou a expressão sentida para todas as dores humanas e a conformidade passiva diante da fatalidade das cousas.

    Minho teve o seu poeta lyrico em Bernardes, o discipulo querido de Sá de Miranda; a Extremadura o seu Camões, synthese da alma portugueza; se a idealisação do amor se eleva, avançando mais para o sul, e o Alemtejo apresenta os lyricos incomparaveis Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, o Algarve levou bastantes seculos para que ahi se manifestasse uma organisação poetica que representásse, em toda a sua altura, o caracter ethnologico dessa provincia. É significativa a phrase de Junot, na proclamação de 1 de Fevereiro de 1808: «les provinces d’Algarves et de Beyra Alta auront peut-être un jour leur Camoëns.>*

    Basta olhar para o retrato de João de Deus: tem o surriso de Ariosto, bondoso mas dominativo, que não destôa do seu typo arabe, cuja regressão morphologica se accusa na estatura mean e delgada, nos cabellos pretos e macios, nas linhas finas e nervosas da physionomia, no olhar a um tempo vehemente e extactico. Na sua vida, a melhor parte passou-a na inacção de contemplativo, abstrahindo do mundo, como um suphi da Persia, entregando-se á onda dos acontecimentos com a confiança do arabe na fatalidade. Assim atravessou o meio dissolvente da Universidade de Coimbra, assim se libertou das intrigas da politica dos partidos medios; no mesmo descuido constituiu familia, e nesses devaneios isolados de uma existencia atormentada e sem queixas, renovou o lyrismo portuguez e realisou uma fundamental transformação pedagogica na eschola primaria. A sua poesia é inspirada no mysticismo do amor, e na linguagem tem a indecisão deslumbrante de uma vaga metaphysica neoplatonica: apoia-se em uma crença, a emoção de um christianismo tal como aquelle de que se inspiraram os poetas da Ombria, Sam Francisco de Assis, o irmão Pacifico e Jacopone de Todi, e ainda os eloquentes hymnographos da Egreja. João de Deus não saíu do Algarve antes dos desenove annos; foi nesse isolamento do mundo, em contacto com a natureza, na doce affectividade domestica, que elle contrahiu uma suavidade de caracter, que é a sua força e o traço proeminente da sua individualidade. Como Bocage, elle tambem teve um terrivel mestre de latim, em um legitimista da localidade; mas a providencia materna acudiu, avisando o implacavel Orbilio de que não queria que os filhos aprendessem o latim de pressa.

    Alguma Cultura do tempo da Monarquia

    João Felgar

  3. Foi em Março de 1849 que João de Deus partiu para Coimbra, a aproveitar a epoca dos exames preparatorios no Pateo; viveu por esse tempo no Seminario, matriculando-se no primeiro anno juridico, no curso de 1849 a’ 1850. Circumstancia notavel: neste curso matriculara-se Soares de Passos. Na mesma aula se encontraram os dois poetas, que tanto tinham de influir na poesia portuguesa; Soares de Passos reagiu pela perfeição impeccavel da forma, e João de Deus, incidindo sobre o mesmo empenho, tornou mais ideal a expressão do sentimento, viu no amor a irisação da vida, e, em vez de fixar a nota melancholica pessoal, attingiu um universalismo que lhe deu a posse da lyra humana.

    Os dois poetas não se conheceram nas aulas; na matricula do segundo anno juridico, João de Deus deixou-se ficar em Sam Bartholomeu de Messines, de 1850 a 1851, e quando, de 1851 a 1852, foi adventicio do segundo anno, já Soares de Passos pertencia ao curso adiante. O talento poetico de João de Deus mal despontava; conhecem-se composições do anno de 1852, quando visitou seus irmãos, em Sam Braz de Alportel, que ahi estudavam para a vida ecclesiastica, junto do conego Costa Inglez; tal é a poesia A Pomba, que ainda se resente da eschola de João de Lemos. Em 1852, Soares de Passos já publicava o Noivado do Sepulchro, Desejo, Rosa Branca, Saudade, e caminhava para a revelação suprema do Firmamento.

    O meio academico era esterilisante: os lentes, como o Neiva, o Ruas, o D. Frederico, Mexia, P. Carvalho, Joaquim dos Reis, Bernardino Carneiro, representavam a tradição viva do pedantismo das Universidades da Edade media na sua gravidade doutoral; entre os estudantes, as aspirações intellectuaes estavam suppridas pela monomania anachronica da valentia, e as praxes das troças escholares, as antigas önvestidas do seculo XVIII, estavam no auge do vigor, e o calão conimbricense do odio ao futrica, de andar á lebre, dar-se á cabula, exprimia a realidade da vida academica. Nesta época de desalento profundo, depois da irtervenção armada do estrangeiro, pedida por D. Maria II, e depois da Regeneração, que confundiu cartistas e septembristas, é que se produziu a apathia physica e moral que estragou as gerações academicas, que vieram encher as secretarias, ou se annullaram na inactividade provinciana. A poesia em Soares de Passos reflecte este estado dos espiritos, sob a forma de uma melancholia pessoal; e os versos de Lamartine eram imitados porque quadravam com o estado geral de desalento.

    João Felgar

  4. João de Deus, no meio da agitação de uma sociedade sem disciplina intellectual, nem elevação moral, retraíu-se, occultou alguns dos seus dons, e isto influiu para que a sua educação poetica se fizesse deixando raros vestigios de aprendizagem. Com a data de 4 de Novembro de 1854, encontramos a sua segunda poesia, intitulada Ao tumulo; é á que elle chama ensaios de rima.

    Uma cousa o ligava de coração a essa mocidade turbulenta, enthusiasta e imprevidente: era o seu nomadismo da fibra arabe. Tendo perdido o quarto anno, por faltas, voltou a Coimbra, para repetil-o, no anno de 1854 a 1855, em que teve por condiscipulo Barjona de Freitas, que veio a ser seu lente, na época da formatura, em 1859. O talento poetico de João de Deus revelara-se em duas poesias que impressionaram a academia: a Oração, datada de 15 de junho de 1855, e a elegia Rachel. João de Deus tornou-se o typo lendario do estudante; dizia-se o seu nome como uma divisa sympathica – o João. E quem lhe podia resistir? Não era só pela doçura de caracter que o João dominava; possuia outros dons, sobretudo a magia de linguagem com que descrevia, contava, dramatisava, philosophava, com a originalidade do bom senso, dando relevo aos quadros, levando para onde queria a imaginação dos que o ouviam. O cavaco, que torna Coimbra a Circe das nossas recordações, tratou-o elle com a mais carinhosa expressão da arte; o João ficou um conversador maravilhoso. E na viola? a viola de arame, que tocava á maravilha, que dominava quasi tanto como José Doria, o melodista extraordinario, biographado por Joaquim de Vasconcellos, nos Musicos portugueses? Se o João fazia retinir, na Feira, em vespera de feriado, a banza gemente, quando a noite cahia, acudiam os grupos, cercavam-no e eil-os todos levados em bando para o Penedo da Saudade, para a Fonte do Castanheiro, até altas horas; as melodias populares do Choradinho, do Ladrão, ladrão, do Malhão, Agua leva o regadinho, e outras tantas com que cada provincia se representava nas suas reminiscencias, revelaram a João de Deus a simplicidade nativa por onde elle soube achar o veio tradicional do lyrismo portuguez, cuja relação entre as serranilhas dos Cancioneiros trobadorescos e as canções populares está hoje reconhecida.

    Se a palavra nos seus labios desenhava, se a viola coloria as canções do povo, João de Deus tinha outras aptidões artisticas que o tornavam amado e admirado: desen hava á penna como poucos. Todos sabem a anecdota do album em que esboçara um crucifixo; pela inercia de temperamento, deixára o desenho em meio, quando entregou o livro para satisfazer a urgencia do pedido. Tornaram-lhe a entregar o album para que acabásse o desenho; achou mais commodo cortar a pagina, escrevendo no seu logar o distico: Resuscitou, não está aqui. Como Ariosto, transformava a sua morada em galerias maravilhosas, não com o simples devaneio, mas com phantasticos esboços pelas paredes.

    O talento poetico revelado mais tarde tornou-se exclusivo, absorveu-o completamente. O profundo amor por Camões foi para João de Deus mais do que uma intuição de artista; elle começou por fazer reviver a forma esplendida do soneto, tam desacreditada pelas banalidades de um extemporaneo elmanismo. Anthero seguiu este primeiro impulso, na collecção de 1861, elevando-se gradativamente á perfeição inexcedivel alliada ao relevo da subjectividade. A Oração tem um commentario: é a emoção piedosa provocada pela vista da formosa Rachel Nazareth, ameaçada pela comsumpção da phtysica:

    Olha por ella, Tu, dos céos que habitas,
    Do mundo oh creador!
    Ampara o lirio delicado e ‘fragil,
    Ampara a tenra fôr!

    O poeta Joaquim de Araujo encaixilhou esta phrase em um delicioso soneto, que é um vivo retrato de João de Deus.

    A Oração traz a rubrica – Á excellentissima senhora D. R. C. N. – A morte avançou implacavel; foi então que se repetiu com lagrymas, em Coimbra, a elegia: A D. Candida Nazareth, por occasião da morte de sua irman Rachel, e, poucos dias depois, de sua mãe:

    b.. mãe e irman-cinzas cobertas
    De um só jacto de terra… Oh desventura,

    Oh destino cruel!
    Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
    Guiando-se uma a outra á sepultura; ,

    João Felgar

  5. Sobre impressões assim intensas e puras é que se podem escrever poesias como a canção x de Camões (Junto de um secco, duro e esteril monte), como o Crisfal, de Chris. tovam Falcão, a Ecloga v de Bernardim Ribeiro, Cascaes, de Garrett, e A Vida, de João de Deus.

    A indole contemplativa tornou-se uma apathia invencivel. Tendo tomado o grau de bacharel, em 1855, não voltou á Universidade senão passados tres annos, a matricularse no quinto anno, no curso de 1858 a 1859. Foi neste curso que teve por condiscipulo Thomaz Ribeiro; sempre deitado e cercado de amigos, ávidos da sua pasmosa conversação, ditava-lhes versos, que elles copiavam, e que appareciam publicados na Estreia litteraria, no Atheneu, nos Preludios litterarios, no Academico, no Instituto, no Phosphoro. Eram collectores dedicados o seu condiscipulo, Rocha Vianna que o forçou a completar a formatura, ameaçando-o de que perderia com elle o anno – João de Souza Vilhena, Pinto Osorio, Guimarães Fonseca, Rodrigo Velloso. A Vida, é de 1859; o poeta estava com todo o seu poder de emoção; a Heresta repetia-se de cór, por causa da limpidez de um vago idealismo. Mas, ao mesmo tempo, o poeta revelava-se sob um aspecto novo -a satyra : foi a Marmelada, que só muito tarde saiu das copias manuscriptas. Praticou-se uma revoltante injustiça contra um pobre novato do curso de theologia, que levou um R por ter ido fazer acto sem rapar préviamente o buço. Reprovara-o o lente, frade cruzio egresso, D. Victorino da Conceição Rebello, o que dizia da luz do gaz:–Luz sem torcida, e por debaixo do chão? isso não é cá para nós os homens da sciencia.- O novato era companheiro de casa de João de Deus; o poeta insurgiu-se contra a bocalidade do lente, alcunhado o Marmelada, e ditou duas epistolas, que Guimarães Fonseca escreveu. É um poemeto heroe-comico de uma graça inimitavel, que se repetia com malicia entre as gerações academicas. Não ha verso mais repleto do que este: « Bicho intruso em especie humana. »

    Pensou-se, em 1860, em fazer uma collecção das poesias dispersas de João de Deus. Na Bibliotheca de Evora existe um manuscripto, datado de 1861, com o titulo Poesias ineditas de João de Deus, contendo trinta e tres poesias, que representam com toda a clareza a phase lyrica da epoca de Coimbra. Anthero de Quental rejubilou com este plano de edição, e publicou, em 1861, o magnifico artigo A proposito de um Poeta; ahi diz: «João de Deus ha pouco ainda era uma vocação ignorada por todos; hoje conhecem-no e amamno alguns amigos da verdadeira Arte… » Apenas conhecido em Coimbra, os novos talentos que se foram revelando obe deceram ao seu influxo; a versificação tornou-se mais correcta, a comprehensão do rythmo mais intima, o sentimento mais delicado, a estrophe mais primorosa, e a linguagem elegantemente.camoniana. Iam-lhe faltando todos os companheiros da sua longa epoca academica de dez annos, que elle equiparava a «tantos, como a guerra de Troia. A carta de bacharel formado obrigava-o a atirar-se á faina da vida. João de Deus saiu de Coimbra em 1862, e por accidente fixou a residencia em Beja, onde se occupou na redacção do jornal politico da localidade O Bejense; ahi publicou um grande numero de poesias, e, em o n.o 150, de 1863, um artigo Os Luziadas e a Conversação preambular. Acabava então de sair a lume o poema Dom Jayme, de Thomaz Ribeiro, imposto à admiração, auctoritariamente, por um prologo de Castilho. Depois da morte de Garrett, em 1854, e do silencio systematico de Herculano, por 1859, Castilho arrogou-se um pontificado litterario, concedendo bullas de talento, ou revogando os juizos da immortalidade, foi por este abuso de uma auctoridade ainda então não discutida, que soltou a blasphemia de os Luziadas serem inferiores ao Dom Jayme, porque não serviam para se lêr por elles nas escholas. João de Deus insurgiu-se na sua bondade, e protestou com um dito da mais fina ironia : – Condemnar os Luziadas, porque não servem para cartilha do Padre Ignacio, é o mesmo que condemnar a cartilha do Padre Ignacio porque não serve para epopeia nacional.-E rebateu dignamente essa outra heresia de Castilho, de que entre a geração moderna não havia quem assignasse sem vergonha uma estrophe dos Luziadas.

    João Felgar

  6. Este phenomeno da chamada Questão de Coimbra, que significou simplesmente a dissolução final do romantismo, mereceu ser considerado por Stengel, Goldbeck, Gubernatis, Paul Meyer, Monod, Gaston Paris e Fernandez de los Rios; mas não será bem comprehendido, sobretudo na transformação da poesia lyrica moderna em Portugal, se se não estudar João de Deus como o seu precursor. Precedeu o movimento phylosophico e critico dos Dissidentes de Coimbra, e, sem conhecer a renovação das doutrinas metaphysicas, nem as theorias sociaes, nem a synthese monistica das sciencias physicas ou naturaes, nem a indisciplina revolucionaria; sem ter em vista romper com o passado nem proclamar novas affirmações, como é que elle fecundou duplamente a poesia portuguesa, pela sua obra e por uma influencia immediata? Isso que a todos arrebata, isso que é bello porque vae além da personalidade, essa vibração que fascina e inspira, é uma orientação tradicional, que, depois de Camões, os poetas portugueses perderam, e que João de Deus por um tino genial tornou a achar. Entraram em Portugal as correntes do satanismo byroniano, do pessimismo de Baudelaire, do scepticismo enervante de Musset, e dos grandes gritos de justiça de Victor Hugo; os ruidos passaram, esqueceramse, e os versos de João de Deus ouvem-se por cima dos córos tempestuosos, na sua limpidez de melodia matinal, imperturbavel como uma voz da natureza. Nenhum de entre os modernos poetas tem como elle uma individualidade tam sua, e ao mesmo tempo intensamente nacional. E se algum dia houve poeta que, na expressão do sentimento individual, menos fosse dominado pelo intuito de impôr o seu pathos (como os ultra-romanticos) ninguem ainda excedeu João de Deus na espontaneidade da linguagem, na absorpção contemplativa, na conformação dos actos da vida com a pura idealidade; emfim, no desprendimento quasi censuravel dessa parcella de gloria que lhe é devida, e sobretudo tam necessaria ao genio, como estimulo. O lyrismo de João de Deus, embora derivado de uma individualidade cujas qualidades moraes reflecte, caracterisa-se por essa profundidade simples e lapidar que torna sublimes, em todos os tempos, as canções do povo. O segredo, ou a força do seu genio artistico, consiste em saber repassar-se desse modo de sentir da multidão anonyma, e em exprimir-se com a novidade de uma elocução camoniana nos mais caprichosos lavores da estrophe e da rima, sem, comtudo, poder-se descobrir uma antinomia entre o sentimento e a forma que o traduz. João de Deus não contrafaz o gosto popular, e ninguem é mais povo que elle na passividade com que se exprime: a intuição artistica levou-o á mesma comprehensão da critica philosophica, que achou a lei das manifestações do bello na relação organica ou genetica entre as concepções individuaes e o elemento tradicional.

    João Felgar

  7. E’ por isso que o seu lyrismo é inexcedivel, e isto explica como tam cedo exerceu sobre nós todos uma acção profunda. A alta intuição revelou-lhe as formas primitivas do lyrismo nacional, que entrou nos Cancioneiros trobadorescos do seculo xiv, que ainda no seculo xvi transparecia em trechos fragmentarios de Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões, no seculo xvi tambem em D. Francisco Manuel de Mello e Rodrigues Lobo, no seculo XVIII, na Marilia de Gonzaga, persistencia da Modinha brazileira, cuja regressão suscitou os principaes lyricos brazileiros, como Alvares de Azevedo e Castro Alves, que inconscientemente acharam a forma da Serranilha. João de Deus não tinha um passado que o dirigisse e só por um vago instincto de artista soube amar Camões sem separar-se do povo. As cançonetas do Campo de Flores fazem-nos lembrar as mais deliciosas redondilhas de Camões e de Sá de Miranda, certas delicadezas das voltas e esparsas nos cancioneiros palacianos, e demonstram bem o poder intuitivo que o levou a achar o veio aurifero perdido do nosso fecundo lyrismo nacional.

    João de Deus achava-se deslocado no meio das pequenas conveniencias de um jornal politico da provincia; esgotava-se na polemica. Regressou a Messines, vivendo algum tempo em Portimão, entregue á caça, á poesia objectivista e idyllica. Na Folha do Sul, redigida pelos seus amigos Rocha

    Vianna e Philippe Simões, publicou, em 1865, algumas composições desta segunda phase artistica tam accentuada, como Descalsa, Maria, e essa historia commovente e intima de Marina, que tem em si o cumulo duma dolorosa realidade. E’ admiravel o esboço em prosa que acompanha essas quadras e que lembra, por vezes, na sua confidencia, a linguagem da primeira parte da Menina e Moça. Do contacto com a natureza são esses versos descriptivos do Remoinho, em que a palavra pinta de um modo surprehendente os effeitos da tempestade. Neste periodo de convivencia com seu irmão padre, e entregando-se á leitura da Biblia, fez a traducção do Cantico dos Canticos, em uma linguagem que excede os mais arrebatados transportes de S. João da Cruz ou de Fr. Luiz de Leão. A ingenuidade e verdade da alma primitiva foram na lingua portuguesa expressas pela graça e frescura das redondilhas populares, em que as locuções do vulgo dão o perfeito equivalente do estado de sentir duma sociedade patriarchal.

    Em 1868, foi o poeta eleito deputado por Silves, por iniciativa de alguns amigos que lhe admiravam á eloquencia natural; elle não conhecia o que é a politica dos partidos medios, que tem falsificado o regimen do constitucionalismo, acobertando com as fórmulas parlamentares o despotismo contra o qual a nação ainda teve força de reagir, em 1847. Com uma eloquencia unica, pela espontaneidade e pelo ideal, achou-se em uma camara sem ideias, então denominada dos Possidonios. Outros poetas com menos capacidades violaram em seu beneficio a maxima de Garção :

    Almotacé que queiras ser de um bairro
    Excluido serás, sendo poeta…

    A Cultura do tempo da Monarquia, com poetas a mencionar os Luziadas e não dar a importância maior , como a Republica dá como poeta de camões português e na realidade Espanhol.

    João de Deus insurgiu-se na sua bondade, e protestou com um dito da mais fina ironia : – Condemnar os Luziadas, porque não servem para cartilha do Padre Ignacio, é o mesmo que condemnar a cartilha do Padre Ignacio porque não serve para epopeia nacional.-E rebateu dignamente essa outra heresia de Castilho, de que entre a geração moderna não havia quem assignasse sem vergonha uma estrophe dos Luziadas.

    João Felgar

  8. 1894
    JOÃO DE DEUS ESCORÇO BIOGRAPHICO A POESIA portuguesa da geração actual não pode ser bem … Na pequena povoação de Sam Bartholomeu de Messines , nasceu João de Deus , em 8 de Março de 1830 ; seu pae , Pedro José Ramos , commerciante , era dotado de uma … sua mãe , Isabel Gertrudes Martins , era a bondade em pessoa , a mater dolorosa , que viu morrer sete filhos , uns ..

    O resto dos livros relativo a João de Deus, são do tempo da Republica e não contam tudo e alteram alguns conceitos, não sei porquê, não sei qual é a necessidade em alterar o que foi escrito do tempo antigo, com as palavras meio português, não vai afetar a compreensão do texto, mas sempre alteram palavras e situações que não são reais, gostam de inventar coisas, será o mal destes escritores da Republica ? não sei

    Joaquim Costa · 1928
    JOÃO DE DEUS João de Deus Ramos , filho de Pedro José Ramos e de sua mulher D. Isabel Gertrudes Martins , nasceu na freguesia de S. Bartolomeu de Messines …

    1943
    João de Deus chegou ao mundo no dia 8 de Março de 1830 , em S. Bartolomeu de Messines . Seus pais , Pedro José Ramos e D. Isabel Gertrudes Martins , viviam modestamente , e o filho manteve também essas tradições ficando , tôda a …

    João Felgar

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