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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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MÁRIO QUARTIN GRAÇA

Para a Bi.
E também para o Duarte Ivo Cruz.
O Mário deixou-nos esta madrugada, serenamente, em Sábado Santo. Muito esperávamos ainda dele, da sua inteligência, da sua sobriedade, do seu conhecimento. Felizmente, deixou-nos ainda as deliciosas memórias, que intitulou despretensiosamente «Páginas Amarelas». Poderemos sempre regressar a elas e reencontrar o seu espírito e o seu exemplo. Aí deparamo-nos com uma época e um conjunto de personagens, que nos permitem gozar o melhor do memorialismo. Homem de nunca parar, deixou preparadas as comemorações de Miguel de Unamuno, que lhe prometi que se fariam, em sua memória e segundo o espírito que desejava imprimir nelas. A promessa aqui está reiterada, com o pedido a todos os seus amigos que possam congregar esforços para que a dignidade seja suprema. Para o Mário, a cultura portuguesa era inesgotável, universalista, permanente, feita de pormenores, de amizades, de encontros – mas sempre de vontade, de determinação e de esperança. A cultura é por definição viva, imprevista, incerta, imperfeita, apaixonante. Amava, por isso, os sítios por onde passou na sua vida multifacetada de diplomata, de caminhante, sempre de peregrino – Brasil e Espanha tiveram uma importância fundamental. Todos nos lembramos da sua presença neste blog do CNC. Lendo os seus textos, percebíamos que o tempo e as personagens que aí habitavam eram motivo permanente das suas invocações e do seu entusiasmo. Do Mário poderemos dizer o que ele mesmo, muito justamente, disse de Paulo Lowndes Marques: «foi em toda a sua vida um exemplo perfeito da Parábola dos Talentos, ou seja, o exemplo de quem nunca deixou de pôr a render todas as suas qualidades e de cumprir, de forma exigente, os seus deveres na terra e de quem nunca se conformou com a atitude daqueles, pessoas ou instituições, que não assumiam por inteiro as suas responsabilidades». Nunca esquecerei a sua invocação do Padre António Vieira, que foi para D. João IV o que grão-doutor João das Regras foi para o Mestre de Avis. «Já então os lisboetas se haviam habituado a encher a Igreja de s. Roque, atraídos pela fama dos seus sermões, nos quais, além de cuidar das coisas de Deus, cuidava também das coisas da Pátria, exortando os fiéis a cumprirem as suas obrigações perante o Estado e a cuidarem do bem comum, porque advertia ele, “sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixaste de fazer”». A conversa com Mário apenas foi interrompida. Seguirá dentro de momentos! Muito e muito obrigado pela amizade e pela generosidade.

Guilherme d’Oliveira Martins

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3 comentários sobre “MÁRIO QUARTIN GRAÇA

  1. Para a Bi

    Saudades do Mário

    Escrever sobre a morte é sempre meio assustador e um risco, pois trata-se de algo que desconhecemos, realmente.

    Quando o queremos fazer para honrar a memória de alguém a quem admirámos em vida, respeitámos ou até discordámos, podemos cair em banalidades ou exagerarmos nas qualidades e virtudes, que é o costumeiro, pois só sendo-se um malvado se vai elencar os defeitos.

    Hoje quero falar sobre o Mário Quartin Graça: homem inteligente, culto, atento e engraçado, com um humor fino e por vezes mordaz.

    Mas apetece-me ressaltar esta qualidade previamente mencionada: ser atento. Ao que o rodeava, ao que tinha interesse em descobrir e conhecer, em ouvir quem lhe merecia interesse para aprender, e talvez uma faceta desta atenciosidade – uma enorme humanidade em relação ao sofrimento do outro, um desvelo tímido em proporcionar ajuda, consolo e ir ao encontro.

    Muita gente lhe estará grata por tantas coisas e isso é bom. Nunca se deve fazer uma contabilidade “oficial” do amor e da amizade dada com generosidade, mas pode e deve- se fazer batota quando o destinatário da informação não é o Ministério das Finanças, mas sim Nosso Senhor.

    O Mário vai dar imenso jeito no Céu: organizar bibliotecas, actualizar a compra de livros que anda desleixada, divertir meio mundo mas sobretudo contamos com ele, para junto de Deus Nosso Senhor interceder por nós e pelas nossas fraquezas.

    Saudades tuas, mas vemo-nos quando o Altíssimo entender. Até lá e obrigado por te teres cruzado na minha vida.

    Manuel de Noronha e Andrade

    1. Saúdo o MNAndrade pelo belo texto. Falar de coisas sérias com uma ponta de fino (e por vezes melancólico) humor, não é para todos. Essa de “o jeito que o Mário vai dar no Céu” é magistral! Não sei se alguma vez me cruzei com o MNA , que a minha memória para nomes é fraca. Invoca o Paulo L. Marques que também conheci. Quem sabe se em casa dele, ou no Centro, ou… Mas se não, pode ser que um dia… Por agora saúdo e agradeço.
      Aproveito para dizer que também gostei do post .

  2. Muito obrigado pelo seu comentário que muito me honra.
    Eu tenho um blogue meu aonde escrevo quase diàriamente, mas é arriscado dar uma mirada pois o Vicente Mais ou Menos de Souza (é o nome do blogue) é prazenteiro mas provocador. Lá poderá, se fizer a caridade de o consultar…ahah, de encontrar o meu alter ego! Mantenho uma correspondência assídua com um primo meu que já morreu e que me mantém ao corrente do que para lá se passa. Como vê, em termos bloguísticos posso parecer insano nos meus contos, poesia e comentários, mas o Guilherme (Oliveira Martins) que é meu primo pode asseverar sobre a minha normalidade enquanto MNA, I hope:-) Terei muito gosto em o conhecer quando quiser. Um abraço.

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