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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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“Mirror rooms” e o infinito cósmico

“Well, you might say that I came under the spell of repetition and aggregation. My nets grew beyond myself and beyond the canvases I was covering with them. They began to cover the walls, the ceiling, and finally the whole universe. I was always standing at the centre of the obsession, over the passionate accretion and repetition inside of me.”, Yayoi Kusama, 1964 (Hoptman 2000, 103)

Cada sala de espelhos, da artista Yayoi Kusama, é misteriosa e surpreendente. Ultrapassa os limites do tempo e do espaço. A repetição dos mesmos elementos parece tocar as fronteiras do universo, criando sensações de vertigem. O cintilar das luzes e a escuridão conduzem-nos a uma experiência extracorporal. Estamos no centro, imersos em comoções vibrantes. Somos transportados para uma observação interminável de cor, de luz e de vazio. A existência infinita das bolinhas eletrónicas, mostra o que está para além da nossa existência. Estas salas oferecem uma visão privilegiada da existência humana. São espaços de escape, inexatos, que nos confrontam com a nossa finitude. Ali, somos colocados perante o mistério insolúvel da vida, o inexplicável que se estende por um cosmos infinito.

Kusama tenta apreender e manifestar esta perplexidade e este sentido de vastidão que nos assola, que nos envolve e que nos engole. Estamos todos imersos num cosmos eterno e misterioso, e as salas de espelhos são uma forma de nos colocarmos perante a imensidade do universo. Kusama revela, assim o que está para além da nossa existência.

As salas infinitas funcionam, para Kusama, como um possível processo de superação de sentimentos de ansiedade, mas também como um processo de exploração de ideias acerca do infinito e da imparável loucura que é existir. Sensações de pânico colocam o ser humano diante do infinito, do que não é palpável, em contacto com o essencial, e que vai muito além da realidade.

É muito fácil perder a ligação com as coisas e as pessoas, nestas salas. É um mergulho profundo num universo imenso, infinito e sem sentido que nos absorve e nos oblitera. Não somos nada perante a imensidão, talvez só um ponto, uma bolinha.

As bolinhas que invadem as obras de Kusama, as pinturas em rede, os corpos pintados, as salas infinitas, tudo isto rompe com todas as fronteiras do espaço e serve de cenário para todas as visões desta artista. Afinal, explica Kusama, a Terra, é um ponto no universo; a Lua também é redonda; o Sol é, igualmente uma pequena bola. Todo o universo é feito de acumulações de planetas, de estrelas, de poeira, de gases, de vazio, de matéria-escura… Em todo o lado, existem aglomerações. Tal como a sensação de solidão e de vazio, o amontoar obsessivo de elementos, pode levar a sentimentos avassaladores. Fazemos parte de tudo isto, mas também somos nada. Somos infinitos, mas igualmente pequenos e insignificantes. Presos à uniformidade, estranhamente mecanizados.

A fixação por bolinhas refere-se também às alucinações de Kusama e a uma obsessão de preencher todos os espaços, até ao limite. Kusama admite que perante os pincéis e as telas, as suas mãos começam a pintar antes mesmo de qualquer pensamento. Kusama não força as bolinhas, inconscientemente, as bolinhas aparecem. Talvez, sugere a artista, seja uma forma de escapar ao seu transtorno mental ou possivelmente ao facto de se poder subtrair na total absorção do seu trabalho (quando Kusama cria tudo desaparece à sua volta e só as suas mãos estão a fazer, funciona como uma escrita automática que não é refletida ou pensada mas simplesmente sentida e executada).

Na sua difícil infância, Kusama revela ter tido visões vívidas com padrões e teias infinitas. Quando era criança, Kusama também rasgava roupas, papéis e livros em milhares de pedaços com tesouras e lâminas de barbear. Também gostava de partir janelas, espelhos e pratos com pedras e martelos. (Hoptman 2000, 100) Por isso, o seu trabalho sempre foi feito de acumulações e de muitos elementos semelhantes, que tentam preencher um vazio e o uso da repetição causa intencionalmente sensações hipnóticas. Na verdade, Kusama procurava replicar experiências que foram muito profundas para ela, e isso manifesta-se de forma lúdica e ingénua. As suas instalações absorvem-nos, são realidades paralelas que nunca acabam e que abrangem a totalidade que nos rodeia. As suas obras são puras sensações, celebram a vida e o maravilhoso mistério do universo.

“Our earth is like one little polka dot, among millions of other celestial bodies, one orb full of hatred and strife amid the peaceful, silent sphere. Let’s you and I change all that and make this world a new Garden of Eden.”, Yayoi Kusama, An Open Letter to My Hero, Richard M. Nixon, 1968 (Hoptman 2000, 106)

Ana Ruepp

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