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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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NEM TUDO É TRISTE…

 

Minha Princesa de mim:

 

A sofrer tormentos, caldos e gélidos, obriga Virtude corpos iguais, e não nos revela nem como nem quais. Louco é quem espera que a nossa razão possa discorrer a substancial união de três pessoas numa… Contentai-vos,humana gente, com perguntar: pois se tudo pudésseis ver, não teria tido Maria de à luz dar… Traduzo livremente uns versos do terceiro canto do Purgatório da Comédia do Dante. Está aí Agostinho de Hipona, como quando pergunta a um menino como pretende encher a covita que fez na areia da praia com a água toda do mar, e o pequeno lhe responde que tal seria mais fácil do que o bispo explicar o mistério da Santíssima Trindade. O mesmo Santo Agostinho que se interrogava sobre se, entre a morte de cada um e o Juízo Final de todos, não haveria um passo qualquer de purgação das faltas que não pesassem o suficiente para precipitar o pobre humano nas profundas do inferno. Durante séculos, a ideia de purgatório — palavra que, como substantivo, ou concretização de um lugar não terá sido utilizada antes do sec. XI – não diferia muito da de estado de espera do dies irae, intervalo entre duas vidas ( a passada e a possível)… Só em meados do sec. XII ganhará corpo o conceito de estado ou local de última purificação. E mesmo o papa Inocêncio IV, em 1245, ou o concílio de Lyon, em 1274, o referem de modo mais adjacente… Curiosamente, o chamado concílio da união (Florença, 1439), recordado ou não desse florentino do sec.XIII que se chamava Dante Alighieri, guelfo (e, por sê-lo, morreria exilado em Ravena) com amigos gibelinos (pela sua Beatriz?) – o tal vate cuja Comedia, só no sec. XVI apelidada Divina, se tornou certamente num dos maiores arautos do Purgatório (há quem diga que o escreveu e meteu entre o Inferno e o Paraíso para se conter e não atirar totalmente para as profundas o papa Bonifácio VIII) – lembra, na linha mística da comunhão dos santos, o seguinte: Aqueles que morreram na amizade de Deus antes de terem conseguido dignos frutos de penitência são purificados depois da sua morte pelas penas purgatórias e beneficiam do sufrágio dos vivos… Cento e vinte cinco anos mais tarde, o Concílio de Trento tentará salvar do anátema dos reformadores protestantes sobre o sufrágio das almas – tido como caça papal ao dinheiro dos fiéis, por via do comércio de indulgências – a intenção generosa da comunhão dos santos: A Igreja Católica ensina que há um Purgatório, e que as almas aí retidas são ajudadas pelas intercessões dos fiéis e sobretudo pelo sacrifício propiciatório do altar… E assim, Princesa de mim, se afirmou uma ideia como lugar onde – em que já poucos acreditam – com outra que, aliás, também em outras religiões e culturas, concita cultos e obrigações devotas: a do nosso estado de comunhão com os mortos. Por isso, na Igreja Católica, se celebram os fiéis defuntos, logo no dia seguinte à festa de todos os santos. Estes – que não sabemos nem quantos nem quem todos são – estarão já no paraíso. Os outros — aqueles de que apenas sabemos que são defuntos – esperançosos esperamos que não tenham caído no inferno e estejam, todavia, a lume brando, no purgatório… E para que dele se livrem depressa e bem, rezamos e sufragamos: nós,os ricos, com muitos ofícios e missas encomendadas, como se, na eternidade do além, valessem ainda os dinheiros que todas as civilizações do mundo insistiram em entregar como viático dos mortos com posses ou amigos abonados; nós todos, incluindo nós outros, os pobres, quando mentalmente introduzimos uma intencão piedosa por um dos nossos naquelas cerimónias… Ou, universalmente, todos os dias em qualquer lembrança orante, e em comunhão manifesta com todos – passados, presentes e futuros – nesse dia 2 de Novembro, quando a memória antiga do ser que somos nos diz que, afinal, só uns com os outros existimos. Pensossinto que é nessa consciência íntima da comunhão dos santos (que são os pecadores em conversão ), que o purgatório existirá: sentido agudo de que a cidade de Deus, a Jerusalém celeste, se vai construindo com estas pedras de sofrimento que todos, no decurso de milénios, temos sido. Cada um de nós, e Deus incarnado em todos. O purgatório, minha Princesa de mim, é esta vida. E ao dizer-to, creio-me privilegiado: porque para muitos e muitos homens e mulheres, esta vida tem sido o inferno que não mereceram mais do que tu ou eu. E não desejemos que para outros, muito poucos, se cumpra esse dito de Jesus: Já tiveram a sua recompensa. Se nenhum de nós conhece a própria cruz, quem saberá pesar a de outrem? Acabo mais uma carta sem te falar do fantasma espanhol… Ou, melhor, desse purgatório, noctívago e assombroso, que é a condição de alma circulante e penada… Conheço fantasmas que atravessam muros – inclusive os parietais das nossas cabeças – e, suplicantes, nos ameaçam…até tropeçarem num qualquer invisível degrau, baterem com o nariz no chão e se instalarem na nossa sala, com os inexistentes pés metidos num alguidar com água de sais, e compressas aliviantes no frontespício… Nem tudo é triste. Hoje, além da mão, dou-te um beijo, daqueles que sossegam.

 

Camilo Martins de Oliveira

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