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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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NOVA EVOCAÇÃO DOS 200 ANOS DE “CATÃO”

 

Já aqui evocámos que em 1821, portanto há 200 anos, Garrett escreve a sua segunda peça “Catão”. Tal como então referido, a peça foi estreada nesse mesmo ano no Teatro do Bairro Alto com a participação algo insólita do próprio autor. E foi posteriormente representada em Lisboa, durante o exílio de Garrett, o que documenta e de certo modo valoriza a relevância epocal de Almeida Garrett também na política.

E como então referi, essa expressão mais se justifica no contexto da própria peça. Efetivamente, Garrett utiliza o chamado verso clássico, mas aplica-lhe a ideologia liberal que aliás se adequa à própria expressão já dominante na obra garrettiana: pois como escrevi na “História do Teatro Português”, Garrett demonstra, nesta peça de juventude, uma capacidade admirável de manuseio do verso clássico, mas aplica-lhe com exemplar clareza a afirmação  do combate ao absolutismo e a referência direta à própria ideologia liberal e às instituições que na época e ainda hoje a consagram: pois, como temos escrito, o dialogo entre Décio e Catão é nesse aspeto exemplar:

“Décio: A Catão saudar César envio.
Catão: César não vejo aqui, vejo a Senado. /Eu César não conheço”.

E Catão esclarece o conjunto de medidas que considera necessárias:

“Catão – As condições são estas: Desarme as legiões, deponha a púrpura, abdique a ditadura: à classe torne de simples cidadão e humilde aguarde a sentença do Roma.  – Então eu próprio, quanto inimigo fui, cordial amigo, seu defensor serei”…

O “Catão” é considerado uma espécie de símbolo da renovação romântica do teatro em Portugal. E no entanto, a estreia em 1821, como vimos, no Teatro do Bairro Alto, constitui, mesmo no contexto da dramaturgia garrettiana, um texto de certo modo menor, pelo menos no sentido da sua originalidade temática, e isto não obstante a qualidade da peça em si, sobretudo como é óbvio na elaboração estilística da linguagem.

E será oportuno transcrever referências ao tema no sentido da própria criação da parte do autor. E será oportuno então transcrever as citações que David Mourão-Ferreira incluiu numa interessante análise feita a esta peça de certo modo iniciática: referimos o estudo publicado em “Hospital das Letras” (1966).

Diz então David Mourão-Ferreira:

«Em primeiro lugar a escolha do herói diz muito da própria época – e muito lhe vem dizer: “Tomada de consciência cívica da geração liberal” lhe chamou com toda a razão Vitorino Nemésio. Em segundo lugar, diz muito do próprio autor, pois, como judiciosamente observou Andrée Crabbé Rocha, “na faina da agitação política, não devia estar longe de se julgar ele próprio um novo Catão, um puro devotado à causa da liberdade como o outro”. Mas não era só isto: sob o trajo romano, e para lá da intenção meramente política, Catão representava aquele arquétipo português da grandeza, aquele ideal de austera integridade (“homem de um só parecer, etc., etc.), do qual jamais Garrett deixará de sentir a impiedosa e profunda nostalgia.»

E finalmente, na mesma obra, uma apreciação de David Mourão-Ferreira sobre Garrett (in “Para um Retrato do Garrett”, “Hospital de Letras” Guimarães ed. pág.73 e segs.)

«Poucos autores portugueses se mostraram tão cuidadosos como Garrett a pôr de acordo a vida e a obra. A intuição que ambas reciprocamente poderiam justificar-se, leva-o, desde muito cedo, a estabelecer, entre uma e outra, os mais complicados jogos de espelhos. É já um sintoma de “má consciência”. E é, por outro lado, o desejo de aparentar a unidade que a cada instante o desampara. Constitui alem disso, curiosa lição para os amadores de biografismo em matéria de crítica literária, – porquanto, na medida em que a biografia aparece constantemente adulterada ou retocada, em função da obra, se denuncia afinal o abismo existente entre as duas”.

Assim mesmo!

DUARTE IVO CRUZ

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