Porque a luz existe e permanecerá
Sempre que a palavra elaborava outra
era tempo de asas na poesia de Nuno Júdice.
Havia uma concha que nos levava dentro da Casa de NJ
num diálogo fluente, redivivo em nós por nos reconhecer
agua-vento, transubstancial.
Porque há que acordar uma segunda vez, hoje e também este poema tão rumo:
“A Origem do Mundo”
De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.
NJ
Teresa Bracinha Vieira