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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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O ENSINO DO TEATRO EM PORTUGAL 4 – FERNANDO AMADO, PROFESSOR

 

 

Já nos referimos longamente a Fernando Amado como dramaturgo. Agora, faremos a referência a Fenando Amado como professor. E essa deve ser entendida em duas dimensões, digamos assim: porque professor foi ele a vida inteira – e a atividade e colaboração direta no Centro Nacional de Cultura comprova-o amplamente. Mas estas crónicas situam-se especificamente na atuação no Conservatório Nacional, onde aliás, como já foi dito, fui seu aluno na cadeira de Estética Teatral e aluno-ouvintes na cadeira de Arte de Representar e Encenação – estávamos na transição dos anos 50/60 do século passado, há mais de 50 anos!…

Já tive ocasião de lembrar a extraordinária pedagogia de Fenando Amado, no sentido múltiplo da cultura que transmitia e na formação técnica aos atores que ministrava: e isto, tanto num sentido teórico, estético e filosófico, como sum sentido direto, prático, de encenação de exercícios, que eram verdadeiros espetáculos, e de direção de atores. Fernando Amado era professor, encenador e até, não raras vezes, nas aulas e mesmo em exercícios públicos, ator.

As aulas de Fernando Amado eram um misto de ensino teórico, de exercício prático e de ensaio de espetáculo. Explicava e exemplificava, naquele seu tom pausado e profundo. Orientava os alunos, subia para o palco, representava com talento e profundidade. O repertório utilizado em exercícios era preferencialmente contemporâneo, pois entendia que é mais fácil começar por obras nossas coevas, sem deixar para trás a abordagem do teatro clássico – mas mesmo essa numa perspetiva da sua própria modernidade.

Sobretudo nos exercícios práticos, a orientação era para a contemporaneidade, mesmo quando se tratava dos textos clássicos. Assim aprendemos todos por exemplo a modernidade de Gil Vicente… Mas o repertório de exercícios práticos revelou aos alunos um conjunto de autores e peças que, no final dos anos 50, início dos anos 60, eram pouco conhecidos entre nós.

 E é interessante pensar que foi no Conservatório, em tantos e tantos casos, o primeiro contacto público – pois as audições eram abertas á critica e ao público – com dramaturgos praticamente inéditos, ou quase, em Portugal. Recordo Thorton Wilder (A Longa Ceia de Natal), Artur Miller (cenas de A Morte de um Caixeiro Viajante), Eugène ONeill (cenas de Longa Viagem para a Noite) Lorca (Amores de Don Perlimpim com Melisa no seu Jardim) … além de clássicos com Shiller e os autores portugueses.

Tudo isto, repita-se, no Conservatório Nacional, em textos por vezes adaptados diretamente pelo Professor: e tudo isto sem necessidade de exame prévio da Censura, que não abrangia a Escola, mesmo em audições abertas ao público.

E finalmente: todo este exercício de espetáculo era fundamentado e enquadrado pelas aulas e pelos ensinamentos na cadeira de Estética Teatral: e aí, Fernando Amado revelava-se imbatível!

 

DUARTE IVO CRUZ  

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