(Pedro Cunha – in Público)
Falar de Bernardo Sassetti é referir um dos mais talentosos músicos portugueses de sempre, com dimensão internacional. Digo-o sem receios. E se dúvidas houvesse bastaria referir a sua participação no filme de Anthony Minghella «O Talentoso Sr. Ripley». A melodia que lembramos é «My Funny Valentine», o intérprete é Matt Damon. O pianista escondido era o nosso Bernardo. E Minghella tanto gostou que lhe pediu para tocar nas ante-estreias do filme em Chicago, Los Angeles, Nova Iorque e Roma – a partir de obras por si compostas com o trompetista Guy Barker – o mais famoso inglês na sua disciplina. Esta história não vale só por si – corresponde ao reconhecimento exigente do talento de Berrnador Sassetti. Era uma pessoa modesta, mas consciente do que podia fazer com a sua qualidade artística. A literatura era uma das suas paixões, como a fotografia, a pintura, o cinema – tudo afinal o que era o mundo. E insisto no facto de ser uma das grandes referências da arte contemporânea. Ouvi-lo é como senti-lo a usar as cores, os claros, os escuros, as impressões. Falei com ele longamente da sua paixão pela poesia de Sophia de Mello Breyner – e era espantoso o seu amor pela literatura como vida. Há dias fomo-nos despedir de Fernando Lopes e lembrei-me de «98 octanas» – mas também de «A Costa dos Murmúrios» de Margarida Cardoso e Lídia Jorge» ou de «Milagre segundo Salomé» de Mário Barroso e Rodrigues Miguéis. Mas havia também o teatro como em «A Casa de Bernarda Alba» (com encenação de Diogo Infante e de Ana Luísa Guimarães) ou «Frei Luís de Sousa, na leitura de Ricardo Pais. E depois (ou antes de tudo) o extraordinário concertista, com Mário Laginha e Pedro Burmester, ou como Carlos Barretto e Alexandre Frazão. Originalíssimo compositor, cultor da música contemporânea – capaz de ligar o popular, o jazz, o clássico, em suma,uma linguagem universal da arte e do coração
Guilherme d’Oliveira Martins
