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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE DAVID TELES PEREIRA

Rua Adamczewski

Na distante memória, a estreita rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.

Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim de tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.
Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,

como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?

In Criatura nº 4, 2009

Adamczewski Street

In a distant memory, narrow Adamczewski Street
goes round our eyes until it opens into
the graveyard on top of the hill, where children play
king of the castle in a birdless tree.

Here the shadow of death is as present as that of the afternoon;
luckily it’s barely past midday and the old folks
drink herb brandy at the café expecting almost anything
but the scream of a flower that hopes for a destiny.
But we hear it and our time is changed,

as if we were able, ear to the ground,
to associate the triumph of the ants with that of our ancestors
as they walked side by side, arm in arm up Adamczewski Street
towards the graveyard, singing
If it isn’t the dead who guard us,
why do we lay them there?

© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

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