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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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TEATRO ANGRENSE

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES II 

 

Fazemos hoje uma referência ao Teatro Angrense, pois constitui ele também um belo exemplo, em plena atividade, do que chamamos a “geração” dos teatros oitocentistas, construídos ao longo do país e mesmo, como aqui se vê, nas zonas mais descentralizadas – mas nem por isso, evidentemente, menos relevantes no ponto de vista urbanístico, arquitetónico e cultural: geração definida e efetivada na sequência do garreteano Teatro de D. Maria II, inaugurado, como bem sabemos, em 1846.

 

E vem a propósito, então lembrar que Garrett e António Feliciano de Castilho, deixaram a sua marca específica nos Açores, onde estiveram, em épocas separadas, por razões e permanências diversas, ambas aliás algo episódicas – mas nem por isso, note-se bem, menos relevantes e significativas na cultura nacional e local.

 

Em qualquer caso, o que agora nos interessa é evocar a fundação e a permanência, em plena atividade deste Teatro Angrense, devidamente adaptado também ao espetáculo cinematográfico, modernizado no ponto de vista da atividade técnica e cultural, mas sem que isso implique a destruição da sala oitocentista: exemplo que, como temos aqui visto, não foi nem é acompanhado em tantos e tantos casos, por esse país fora… E nesse aspeto só há que elogiar a politica urbanística prosseguida em Angra do Heroísmo, que aliás lhe valeu ter sido classificada como Património Mundial da UNESCO.

 

O Teatro Angrense representa um belo exemplo dessa descentralização, acentuada pela insularidade, que à data da construção e inauguração, era ainda mais evidente. Trata-se, de facto, de um belo exemplo de arquitetura de espetáculo, inaugurado que foi em 22 de novembro de 1860. As notícias da época dão-nos conta de uma celebração que envolveu, além de representações dramáticas cindas de Lisboa, um concerto no salão nobre, a cargo da Banda do Regimento de Infantaria: celebração típica da época!…

 

O Teatro Angrense beneficiou de obras de remodelação funcional e arquitetónica, primeiro em 1926, posteriormente já na década de 80 do seculo passado, tendo sido entretanto municipalizado.

 

Ora, tal como já escrevi na sequencia de uma detalhada vista para a elaboração do livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) e que posteriormente repeti,  o Teatro Angrense mantem-se com alterações aceitáveis numa estrutura original oitocentista que se conservou,  apesar de mudanças, como a do fosso da orquestra, que  mal se descobre.

 

E acrescente-se uma nota de história que valoriza o próprio teatro em si, pelo enquadramento urbano.

 

Em 1599 havia no local um armazém de depósito de fazenda e mais mercadorias vindas do Oriente. Num surto de peste que assolou a cidade, o armazém foi incendiado: entendeu-se, bem ou mal, que a epidemia tinha lá a sua origem…

 

Passados mais de dois séculos, constrói-se então o Teatro. E em qualquer caso, a sala “resistiu” às adaptações a cinema, e é notável no seu conjunto de balcão, frisas e camarotes.

 

Acrescente-se que essa estrutura basicamente inscreve-se na sequencia histórica de infraestruturas de cultura e de espetáculo que marcam os Açores, e que, na Ilha Terceira, ainda se concretiza hoje nos Centros Culturais de Angra do Heroísmo e de Praias da Vitória, ambos segundo projetos do arquiteto Miguel Cunha, autor ainda de um Centro Cultural na Graciosa.

 

DUARTE IVO CRUZ

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