HENRIQUE POUSÃO E AS CASAS BRANCAS…
Como poderíamos falar do Verão sem ir até ao jovem Henrique Pousão, promessa maior da nossa história da arte, levado prematuramente pela doença da época?…
E que é o Verão? Não é outra coisa senão a promessa realizada do tempo consumado, em que se colhem e se debulham os cereais, em que a natureza explode e em que o calor e a luz se projetam nas planícies e no mar cor de cobalto. Poderia ser em qualquer dos lugares do nosso Mediterrâneo. Sim, porque Orlando Ribeiro foi perentório a dizer que nós somos uma partilha entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Mas só a sensibilidade de um pintor português como Henrique Pousão (1859-1884) poderia fazer-nos sentir tão nós próprios perante estas casas brancas, a cal dá vida à luz, estes catos, a mulher que olha este mar ao fundo.
Sabemos que foi em Capri nesse ano distante de 1882, mas poderia ser hoje, agora mesmo. Nada há que não nos seja familiar neste lugar e neste tempo. Não foi por acaso que Pousão se sentiu atraído por esta paisagem, tendo-a interpretado magnificamente.
Pablo Neruda também se deixou apaixonar:
Capri, Reina de Roca
En tu vestido de color amaranto y azucena
Vivi desarrollando
La dicha y el dolor la viña llena
De radiantes racimos
Que conquiste en la terra
É um tempo de paixões que aqui surge retratado, sentido, libertado, fecundo… Não pode ser esquecido o muito jovem pintor. Leia-se o que Bernardo Pinto de Almeida disse da força artística de Pousão, da sua capacidade de interpretar, de dizer e de amar… Ficamos aqui, serenamente, perante estas casas brancas, como se o tempo pudesse parar.
CNC
