É sabido que a obra blakeana pressupõe diálogos com os discursos que a precederam, diálogos deste escritor da linhagem dos grandes visionários, com a sua essência íntima, com a sua própria visão da transcendência e da história usando os seus símbolos para questionar a estética da tradicional simbolização.
O Primeiro Livro de Urizen, edição bilingue, com tradução e apresentação de João Almeida Flor, é texto esclarecedor do quanto Blake é um fortíssimo percursor do romantismo, também por ver e interpretar a pobreza, a injustiça, a malignidade da sociedade que muitos se recusavam a admitir.
Este poeta e artista nasce em Londres em 1757 e inicia os seus estudos de desenho na The Royal Academy tendo escrito e ilustrado inúmeros livros incluindo o “Livro de Jó” da Bíblia. Registe-se que O Blacke Prize for Religious Art é entregue na Austrália anualmente em sua homenagem.
Os Livros de Urizen surgem por volta de 1790 numa actividade de fuga ao mundo indiviso da eternidade, e com essa acepção, o caminho de um perpétuo isolamento abre-se em jeito de profecia e numa ruptura inovadora
«Na fundura da minha solidão sombria
Na eterna morada, meu refúgio sacrossanto (…)
Reservado para os dias do porvir,
Busquei uma alegria de dor liberta»
Infelizmente a não tradicional publicação dos livros de Blake leva à consequência da sua raridade, o que agrava a dificuldade de lhe acedermos, ainda que seja mencionada pelos estudiosos de Blake a complexidade de a interpretar, na difícil correlação que o autor faz entre os deuses, os homens e as coisas.
Mas aqui fica o desafio:
«I alone, even I!»
Teresa Vieira

