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O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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FERNANDO AMADO NO CONSERVATÓRIO NACIONAL

 

A edição do Teatro Completo de Fernando Amado, organizada por Teresa Amado e Vitor silva Tavares e prefaciada por Augusto Sobral (INCM 2000) contem para lá dos estudos e sobretudo da recolha de dezenas de peças do autor, um levantamento exaustivo da intervenção de Amado na renovação da cena e mesmo do repertório em Portugal. Designadamente, lembramos as encenações no Centro Nacional de Cultura, na Casa da Comédia, no Teatro D. Maria, no antigo Ginásio, na Faculdade de Letras de Lisboa e em lugares, salas e palcos menos habituais – por todos, como mero exemplo, a cripta da Igreja de são João de Deus.

 

Mas aqui quero lembrar as produções encenadas em 1959 no estúdio de teatro do Conservatório Nacional. Assisti a todos esses espetáculos mas sobretudo tive o imenso gosto e proveito de assistir aos ensaios. E não há melhor contexto para compreender e apreciar, no sentido mais abrangente, uma produção teatral – do que assistir ou participar nos ensaios…

 

Fernando Amado foi professor de Estética Teatral no Conservatório. Mas foi também, em certas fases, orientador das classes de Arte de Representar e Encenação. Nessa área, ”estreou-se” com um texto de sua autoria e desempenhando o seu próprio papel, de orientador/encenador de uma peça em ensaios. Era um Fernando Amado ator, no palco com os seus alunos e falando diretamente para a plateia.

Mas para alem disso, dirigiu e encenou no Conservatório um repertório internacional contemporâneo, a partir de autores que, na época, eram inéditos ou quase em Portugal.

 

Recordemos esse notável repertório, muitas vezes a partir de seleções de cenas escolhidos pelo próprio professor. Assim:

“A Longa Ceia de Natal “de Tornton Wilder, autor praticamente desconhecido, á época, entre nós;  A “Morte do Caixeiro Viajante” de Artur Miller; “O Prazer de Acabar” de Jules Renard; “O Julgamento de Elsa” de Jaime Araújo, texto rigorosamente inédito; “Longa Viagem para a Noite” de Eugene O’Neill;   “O Túnel” de Per Lagerkvist”, autor pouco conhecido ou mesmo desconhecido em Portugal; “Joana d’Arc” de Shiller.

 

Não se levava à cena a íntegra dos textos. E tinha-se bem presente a natureza didática dos “espetáculos”, apresentados com exercícios e/ou audições de alunos. Mas muito embora: a qualidade e a mestria das encenações de Fernando Amado, o pacientíssimo e interessantíssimo trabalho de direção de atores, faziam desses exercícios uma notabilíssima escola de teatro-espectáculo e, ao mesmo tempo, de cultura e literatura dramática – pois cada peça era devidamente enquadrada na época, na construção textual e dramatúrgica e no conteúdo – “na mensagem”, como na altura de dizia. Em termos de grande atualidade. 

 

E quem como eu pôde assistir, não só aos espectáculos/audições em si, mas sobretudo às  aulas/ensaios, aprendeu sobre teatro muito do que hoje saberá e que nunca esqueceu nem esquecerá…!

 

DUARTE IVO CRUZ

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