TEIMA
O som a dobrar do sino entrava-lhe pelo quarto abafado e ajudava-o a vigiar o mundo.
Quem foi, minha mãe?
Olha, agora foi o da Nélia.
O pai ou o filho?
O filho. Era muito lingrinhas e já não comia há uns dias. E sabes como é a modorra da morte, anda às voltas, às voltas, e…
Mas as gentes não sabem que isto pega-se e vamos todos? Alguém pegou no catraio ao colo? Diz que a pandemia se pega se estamos perto dela. Vossemecê acha que eu já me safei? Ou o mal ainda cá está?
Pois não sei, toda agente tem doentes em casa. Mas não vão todos empandeirados. Há uns que resistem, e tu vais ser um deles, meu filho. Tu tens força de sentimentos como o teu pai que Deus tem, e com essa força demorou anos a fazer-lhe a vontade a Ele. Depois, depois lá foi. Dizem que Deus leva os melhores quando está sozinho. Olha, mas não sei se te contei, mas ouvi dizer que já morreram vários e espadaúdos lá na aldeia de Serzedelo. Dois deles, homens de mau vinho, lá foram desta para melhor que Deus atento os apanhou. A peste é assim. Um dia leva quem deve e no outro é o flagelo do torto a direito.
Mas ó minha mãe, o padre diz que as orações e as penitências são atos de desagravo ao Senhor, bem como os arrependimentos das nossas culpas e das dos outros, e que o remédio passa sempre por aí, passa por atenuar a fúria de Deus. Será que as gentes não pedem perdão como devem? Eu até já Lhe prometi que vou de cruz às costas à roda da aldeia toda e vou de coroa de silvas à cabeça se Deus me salvar. Sei que Ele gosta assim. O padre diz sempre isso na missa. E também lhe vou dar o nosso fio de ouro pois que quem no-lo deu foi ele.
Pois meu filho, fazes bem nas promessas todas, e não leves a mal eu ter chamado o médico que não nos acudiu, é certo, mas foi porque até a ele lhe falhou o seu santo protetor. Sabes?, há muitos santos do céu desiludidos – dizia-me o teu avô – e até já me disseram que era melhor andarmos por aqui e acreditar como o caracol que coloca os cornos de fora quando faz sol e assim vai-se levando.
Minha mãe, confesso, eu até já tenho pensado na Elvira que estava muito prenha quando esta peste nos chegou, e ora a morte pode ser muita, mas o sino devia repenicar a dobrar e a dobrar e a dobrar, se ela se atrevesse ao batizado.
Sim, filho, ainda vamos ter muitas alegrias. Credo, santo nome de Deus! Vai teimando!
Teresa Bracinha Vieira
Sim. O filho tinha razão, se a Elvira prosseguisse com a gravidez, o sino devia repenicar, muitas, muitas vezes, porque a gravidez é o mais belo processo da Humanidade, o maior antídoto contra o egoísmo.
Ser mãe é estímulo nos dias de chuva e alegria nos dias de Sol.
Hoje, a Maternidade vai ainda muito além do seu significado físico, identificando-se com a própria Mãe Terra, uma metáfora para energias criativas.
Grata pela atenção ao texto.
Boas leituras.