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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Folhetins de Verão

EM BUSCA DE IDEIAS CONTEMPORÂNEAS

Folhetim de Verão – Capítulo 5

  


SIDERA ADDERE CAELO… 

Mas o que era o Pacto? Inspirado na experiência das Grandes Amizades em torno de Raïssa e Jacques Maritain e da comunidade fundada por Emmanuel Mounier em Chatenay Malabry, que geraria a revista “Esprit”. Estava em causa realizar um pequeno ideal protagonizado por Mounier: fazer do acontecimento o nosso mestre interior.

Alberto Vaz da Silva explica-nos o que era essa utopia, cuja realidade rapidamente se desvaneceu. E o Alberto, que era um entusiasta de olhar o firmamento, intitulou o seu texto com a fase: juntar estrelas ao céu.

«Quando, nos primeiros anos da década de 60 do século XX, um grupo de amigos decidiu juntar-se para viver em comunidade um ideal cristão, mal sabíamos até que ponto nos assolava a chama da Fraternidade.

Cada qual agia segundo as suas forças, afirmava o que a experiência lhe trouxera, deixava transparecer a sua melhor qualidade, regozijava-se com o sucesso dos outros. Não perdíamos tempo, porque o sabíamos irreversível, cumpríamos a nossa tarefa porque ela ajudaria alguém; a força que havia em cada um de nós era de todos os outros. Ninguém condenava ninguém, não procurávamos riqueza, nem bem estar, nem notoriedade pessoal; havia uma estranha independência forjada pela alegria nos nossos corações.

Não me admira, hoje, que o mais entusiasta propulsionador do Pacto tenha sido a alma ubérrima do Padre Manuel Antunes. E que à nossa volta pululassem as realizações: o surto editorial da “Moraes”, “O Tempo e o Modo”, a “Concilium”, a luta política e contra a censura, uma semi-clandestinidade e a repercussão internacional do que fazíamos, sobretudo em França, ecoada por homens como Jean-Marie Domenach, Pierre Emmanuel, Edgar Morin.

Nessa placa giratória da nossa existência o António era o mais vivido, o mais cosmopolita, simultaneamente o mais solene e o mais displicente, o que assegurava os veios e as transmissões com uma equanimidade serrana admiravelmente temperada pela sua faceta de exímio contador de histórias.

Tudo isso teve o seu apogeu e o seu epílogo, a imensa vaga da evolução e o desabar do tempo varreram as nossas vidas como a inevitável dose de calamidades que torna os humanos mais austeros . Mas o que nesses anos se passou só Santo Agostinho o disse ao falar do amor: “inscriptio cordis in cor”, corações inscritos uns nos outros, para sempre. E agora que se aproxima o tempo da colheita, do abrigo, há que saber reviver noutra escala, tudo convolar na contemplação do novo hieróglifo da eternidade com que a verdade nos contempla cada dia.

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