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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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COISAS QUE SE GUARDAM

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As pessoas que guardam coisas dividem-se, e às vezes combinam-se, em escuteiros e sentimentais:  os escuteiros guardam coisas porque acham que podem vir um dia a precisar delas; o seu modelo é a caixa de parafusos; os sentimentais guardam coisas porque já foram importantes para si; o seu modelo é a colecção de postais.

Nem sempre os planos correm bem.  Poucos escuteiros chegam a precisar de tudo o que guardaram; quase todos acabam por se esquecer daquilo que guardaram; e frequentemente voltam a guardar coisas que já tinham guardado.   Muitos sentimentais acabam por se esquecer das razões por que guardaram as coisas;  a enorme importância que essas coisas tiveram para si pode tornar-se tão remota como as memórias de uma outra pessoa.

Acredita-se que examinar um conjunto de coisas que foram guardadas por alguém nos diz muito sobre quem as guardou.  Ao inspeccionar o conteúdo de uma caixa que encontrámos num armário fazêmo-lo por vezes com as esperanças de um funcionário de alfândega com interesses psicológicos.   Achamos que todas as escolhas se ajustam como peças de um único puzzle e nos permitem conhecer intimamente quem lá as pôs.

Não é no entanto fácil perceber se o conteúdo da caixa que se encontrou foi coleccionado por um escuteiro ou por um sentimental.  Uma chávena desirmanada e uma fotografia de Tuy só por si não dizem nada.  Se foram guardadas por um escuteiro, é provável que o propósito tenha sido o de tentar arranjar chávenas iguais, ou escrever um artigo sobre Tuy; se foram guardadas por um sentimental, é provável que a razão tenha sido uma casa onde a chávena tenha estado, ou um certo habitante de Tuy.   Acontece porém que nem a chávena nem a fotografia nos dizem se foram lá postas por razões escuteiras ou sentimentais.  Os nossos propósitos não passam para as coisas.

Um caso extremo é o daquelas coisas que tantas vezes encontramos em caixas arrumadas por terceiros e que não conseguimos identificar, a não ser da maneira mais trivial: uma peça de plástico que parece um carrinho de linhas mas que tem um parafuso que, da perspectiva do carrinho de linhas, não cumpre qualquer função; um quadrado de tecido onde foram desenhadas letras e talvez animais;  um bocado de madeira que pode ser o assento de uma cadeira, uma tábua de cozinha, ou parte de um barco.

Quando não conseguimos identificar as coisas que alguém guardou não conseguimos já dividir o mundo em escuteiros e sentimentais; apenas admitimos que quem guardou essas coisas seria uma pessoa como nós porque nos garantem que antes de nós nascermos já havia pessoas parecidas connosco.  De facto, só quando conseguimos identificar uma coisa é que podemos concluir que foi guardada por uma pessoa; e só quando conhecemos uma pessoa é que sabemos  porque é que decidiu guardar uma coisa.

 

Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

3 comentários sobre “COISAS QUE SE GUARDAM

  1. Eu talvez seja um sentimental porque guardo um Álbum das Balas Futebol brasileiro de 1954 com as equipas de futebol da altura: nele se incluem Garrincha do Botafogo e Didi do Fluminense, que seriam campeões do Mundo em 1958 na Suécia e Otto Glória seleccionador de Portugal em 1966; guardo também um cavalinho de Dalarna que lembra a minha passagem pela Suécia nos anos 90; um pião da minha infância; algumas estatuetas africanas da minha passagem por Angola nos anos 80; uma bonequinha do folclore húngaro e uma imagem de um Menino Jesus de madeira muito antiga; uma fotografia de 1947 com alguns meses de idade sentado numa cadeirinha de palha em frente da casa de minha avó na Beira Alta.Albertino Ferreira

    1. A memória é alma da cultura. Os exemplos que nos dá enchem-nos de alegria, pois vão ao encontro do espírito de Raiz e Utopia. A ligação permanente entre a tradição e a modernidade – CNC

      1. Aquele álbum de figurinhas do futebol brasileiro dos anos 50 faz-me regressar à infância que passei no Rio de Janeiro para onde os meus pais emigraram. Durante a pandemia resolvi então passar ao papel algumas recordações dessa infância antes que a memória se vá ou que o “primo alemão” apareça sem ser convidado. A essas reminiscências dei o título “A Persistência da Memória” socorrendo-me do Salvador Dali. Resumo apenas algumas delas: o lançamento de pipas com os meus primos, as festas de Natal e S. Cosme e Damião na Igreja Baptista, O primeiro filme que vi com 6 anos de idade “Andrócles e o Leão”, americano de 1952. O lançamento de balõeszinhos de ar quente pelo S. João. As garrafinhas de Coca-Cola no botequim da esquina. Jogar à bolinha de gude com o primo “Zé Bundão”.

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