O Grito, de Edvard Munch
249. SE O RECONHECIMENTO NÃO VEM
Tantas vezes damos o nosso melhor e o reconhecimento não vem, nem virá.
Que fazer, se o empenho e a dedicação não foram notados?
Adentrarmo-nos em egotismo, fatalismo, ressentimento, sentimento de injustiça, sofrimento ou pessimismo?
Sermos infelizes e possuídos por um sentimento de culpa ou de inferioridade?
Não nos respeitarmos, quando nunca ninguém colheu qualquer benefício pelo facto de não se respeitar?
O não sermos compreendidos e reconhecidos pode magoar, porque somos humanos, mas também dá oportunidades de nos conhecermos melhor interiormente, valorizando o nosso crescimento interior.
Se o reconhecimento externo não vier olhemo-nos, se necessário em silêncio, avaliando a nossa caminhada de consciência tranquila sobre as nossas atitudes e a sua contribuição real para o bem comum, assumindo o respeito por nós mesmos, pressuposto fundamental para a sustentabilidade de tudo.
Reconheçamos, honestamente, que não diminuiu o valor do que fizemos porque alguém não aplaudiu, não reparou ou não validou.
Festejemos pequenas celebrações e vitórias silenciosas e silenciadas.
Fazendo culto da empatia e não aceitando que somos descartáveis porque os outros não estiveram atentos.
Se aceitarmos que a caraterística mais universal de um ser humano feliz é o gosto de viver, tendo este como o segredo da felicidade e do bem-estar, porque não procurarmos em possíveis causas de alegria, contentamento e júbilo (como a afeição, família e interesses impessoais) a compensação e o suprimento para o não reconhecimento?
Se após o esforço o reconhecimento não veio, há que não cair em desespero, depressão ou em resignação. Há, então, que apelar à necessidade de um equilíbrio entre o esforço e a resignação, dado que o que havia a fazer foi feito, o que nos tranquiliza, apesar do resultado, em reconhecimento, não se ter alcançado ou não ser o desejado.
Sem esquecer aqueles a quem o reconhecimento não sorriu, enquanto vivos, como tantos intelectuais, escritores, poetas, pintores, agora personalidades icónicas e universalizadas, após a morte, como Fernando Pessoa.
É caso para dizer, em qualquer caso, que quando o reconhecimento não vem, há que aprender a reconhecer-nos, todos os dias, encontrando sentido no nosso caminho, mesmo na ausência de exclamações de aprovação, ovações, louvores ou consagrações.
27.02.26
Joaquim M. M. Patrício
Obrigada pelo seu texto, Senhor Doutor Joaquim M. M. Patrício! Parece-me concordante parafrasear António Damásio: “ Para aqueles que não têm fome e que não vivem sob um sistema opressivo, é necessário compreender que estar vivo é um privilégio”.
Todos temos a nossa fatia de utopia, ressentimento e indignação, a incentivar sem proibições, preconceitos ou ideias pré-definidas, no respeito pela liberdade de expressão, que este espaço de reflexão quer possibilitar, o que é um privilégio e a antítese de um sistema opressivo em que há fome e “morte em vida”.
Bem haja e desejos de leituras promotoras de bem-estar.
Que temática interessante.
É difícil dar o nosso melhor e sentir silêncio do outro lado. Mas gostei muito da ideia de que o reconhecimento mais importante é aquele que fazemos a nós próprios, com consciência tranquila. Celebrar vitórias silenciosas pode não dar palco, mas dá paz.
S
Num espaço cultural que se quer aberto, crítico e pluralista, muito se agradece a minúcia analítica e precisa do comentário (e o interesse expresso pela temática).
Boas escolhas de leituras como um meio de viver melhor.