Lídia Jorge recebeu o Prémio Pessoa, que consagrou de novo uma das autoras mais talentosas e lúcidas do momento atual. Estreou-se em 1980 com o romance O Dia dos Prodígios, que Vergílio Ferreira considerou como sendo o anúncio de que a narrativa portuguesa contemporânea prometia ganhar um novo fôlego. Tive, aliás, o gosto de testemunhar, perante os dois, a genuína admiração do autor de Aparição pela então jovem autora, ciente das suas qualidades culturais e humanas, conhecendo-se bem a grande exigência que caracterizava o mestre. Os livros de Lídia Jorge são expressão de um tempo de transição de uma sociedade fechada e de uma guerra no sentido da democracia, com gradual aproximação da modernidade europeia. Sente-se nessa obra que algo muda gradualmente a que ninguém pode ficar indiferente. O Cais das Merendas, Noticia da Cidade Silvestre ou A Costa dos Murmúrios constituem exemplos dessa transição, muito segura no sentido da maturidade. “Conservar uma memória do passado, e depois caminhar na direção do futuro. Isto é, eu queria criar uma espécie de cápsula do tempo, para que aquele mundo ficasse ali, testemunhado, de forma tão viva quanto possível” (disse a escritora em diálogo com Carlos Reis). E assim encontramos, nos começos, o Algarve antigo, “pobre e belo, arcaico e esplêndido, e por isso pus as personagens a falar com o seu sotaque…” Porém, depois do campo, vem a cidade e o fenómeno urbano. Mas há uma grande autonomia no modo de escrever, com uma preocupação de seguir um caminho próprio, sob múltiplas influências. É “uma geração cujas marcas evidentes estão à vista”.
O Vale da Paixão, O Vento Assobiando nas Gruas, Os Memoráveis (aqui num repensamento sobre a Revolução), mas ainda Estuário e Misericórdia permitiram à escritora interpretar a nossa sociedade e projetar-se internacionalmente. É a condição humana que está sempre em causa, e o mundo vai evoluindo numa diversidade que permite ao leitor compreender e compreender-se. Daí a definição de Lídia Jorge por si própria como “cronista do tempo que passa”. No entanto é muito mais que isso. As personagens dos romances entram e saem, de mansinho, mas destacam características fortes. Algumas pessoas dizem até que têm passado por Vila Maninhos, cenário inconfundível do primeiro romance. Não é verdade. A escritora nunca as corrige, apesar desse lugar só existir mesmo nas páginas do livro. Mas acha bonito, pois a ficção é sempre mais rica do que a realidade. Afinal, os romances partem sempre das casas, das suas varandas e janelas, como um dia salientou Luciana Stegagno Picchio… Aí começa a alma das pessoas e dos lugares. Olhem-se os temas da finitude e do isolamento, tão presentes em reflexões recentes de Lídia. É o mistério das vidas humanas que está sempre em causa. Lembre-se o diálogo alucinante com Agustina sobre Orson Welles ou o “esquecimento” de Maria Aliete Galhoz sobre a releitura de inéditos de Pessoa.
Em boa hora foi atribuído este Prémio Pessoa. Mas há uma leitura por fazer da obra multifacetada de Lídia Jorge. Se houve quem se surpreendesse com a exigência permanente em compreender a dignidade humana nas suas consequências mais profundas, entendendo a relação com os outros e com as diferenças como natural consequência da humanidade, o certo é que há um contrato sentimental que continua a animar a escritora, na certeza da força das raízes fecundas e perenes de Portugal.
GOM
Obrigada Senhor Professor GOM
Também admiro Lídia Jorge. Mas realmente todos somos diferentes uns dos outros.
Claro que as pessoas podem achar com toda a virtude, beleza e sabedoria: “bonito, pois a ficção é sempre mais rica do que a realidade”.
Mas eu prefiro a realidade nua e crua. Defeito profissional ou insistência na alma de criança? Talvez as duas hipóteses.
Vêm-me à cabeça as palavras de Sophia de Mello Breyner “A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar…” E ela assim continua a sua Arte Poética III.
Admiro os artistas que conseguiram expor a realidade, usando metáforas, como por exemplo Zeca Afonso. Era absolutamente necessário. Mas era ainda a realidade….e.g. os vampiros.
Enfim, uma mera opinião pessoal.
Drª Maria Aldina Brás
Muito agradeço o seu comentário.
Fico inteiramente ao seu dispor sempre.
O diálogo literário é muito útil e necessário.
Agradeço ainda que tenha lembrado um texto essencial de Sophia.
Bem haja! GOM
Obrigada Senhor Professor!
Intervenho aqui, unicamente para defender o Ser Humano com a sua singularidade, dignidade e Transcendência, em vez do “Deus Dinheiro”. Cada um o faz, à medida das suas capacidades e limitações. Calar-me-ei logo que note ser inoportuna. Por mim, já me sinto uma privilegiada e nada mais quero, a não ser manter assim os neurónios em funcionamento.
Bem-haja!
Aldina
Muito agradecemos a participação. Bem haja!