auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    O Grito, de Edvard Munch


249. SE O RECONHECIMENTO NÃO VEM

Tantas vezes damos o nosso melhor e o reconhecimento não vem, nem virá.   

Que fazer, se o empenho e a dedicação não foram notados?   

Adentrarmo-nos em egotismo, fatalismo, ressentimento, sentimento de injustiça, sofrimento ou pessimismo?  

Sermos infelizes e possuídos por um sentimento de culpa ou de inferioridade?   

Não nos respeitarmos, quando nunca ninguém colheu qualquer benefício pelo facto de não se respeitar?

O não sermos compreendidos e reconhecidos pode magoar, porque somos humanos, mas também dá oportunidades de nos conhecermos melhor interiormente, valorizando o nosso crescimento interior.   

Se o reconhecimento externo não vier olhemo-nos, se necessário em silêncio, avaliando a nossa caminhada de consciência tranquila sobre as nossas atitudes e a sua contribuição real para o bem comum, assumindo o respeito por nós mesmos, pressuposto fundamental para a sustentabilidade de tudo.       

Reconheçamos, honestamente, que não diminuiu o valor do que fizemos porque alguém não aplaudiu, não reparou ou não validou.     

Festejemos pequenas celebrações e vitórias silenciosas e silenciadas.   

Fazendo culto da empatia e não aceitando que somos descartáveis porque os outros não estiveram atentos. 

Se aceitarmos que a caraterística mais universal de um ser humano feliz é o gosto de viver, tendo este como o segredo da felicidade e do bem-estar, porque não procurarmos em possíveis causas de alegria, contentamento e júbilo (como a afeição, família e interesses impessoais) a compensação e o suprimento para o não reconhecimento?   

Se após o esforço o reconhecimento não veio, há que não cair em desespero, depressão ou em resignação. Há, então, que apelar à necessidade de um equilíbrio entre o esforço e a resignação, dado que o que havia a fazer foi feito, o que nos tranquiliza, apesar do resultado, em reconhecimento, não se ter alcançado ou não ser o desejado.

Sem esquecer aqueles a quem o reconhecimento não sorriu, enquanto vivos, como tantos intelectuais, escritores, poetas, pintores, agora personalidades icónicas e universalizadas, após a morte, como Fernando Pessoa.       

É caso para dizer, em qualquer caso, que quando o reconhecimento não vem, há que aprender a reconhecer-nos, todos os dias, encontrando sentido no nosso caminho, mesmo na ausência de exclamações de aprovação, ovações, louvores ou consagrações.


27.02.26
Joaquim M. M. Patrício

4 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. Obrigada pelo seu texto, Senhor Doutor Joaquim M. M. Patrício! Parece-me concordante parafrasear António Damásio: “ Para aqueles que não têm fome e que não vivem sob um sistema opressivo, é necessário compreender que estar vivo é um privilégio”.

    1. Todos temos a nossa fatia de utopia, ressentimento e indignação, a incentivar sem proibições, preconceitos ou ideias pré-definidas, no respeito pela liberdade de expressão, que este espaço de reflexão quer possibilitar, o que é um privilégio e a antítese de um sistema opressivo em que há fome e “morte em vida”.
      Bem haja e desejos de leituras promotoras de bem-estar.

  2. Que temática interessante.
    É difícil dar o nosso melhor e sentir silêncio do outro lado. Mas gostei muito da ideia de que o reconhecimento mais importante é aquele que fazemos a nós próprios, com consciência tranquila. Celebrar vitórias silenciosas pode não dar palco, mas dá paz.

    S

    1. Num espaço cultural que se quer aberto, crítico e pluralista, muito se agradece a minúcia analítica e precisa do comentário (e o interesse expresso pela temática).
      Boas escolhas de leituras como um meio de viver melhor.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *