Reinterpretar o campo
O campo tem um papel reconstituidor e que, de alguma forma, podemos sentir que nos liberta dos vícios das cidades. Ou o campo não nos surgisse também como ideia de infância, como memória de um tempo-espaço de onde acabamos por nos vermos separados, e talvez por esse sentir, ele nos possa surgir quase sempre anterior à cidade onde estamos.
Um dia, algo começa a provar-nos que aquele tempo do campo nos uniu aos outros e a nós mesmos de modo muito peculiar, e quem sabe se não foi por aí que entramos reconhecedores na felicidade das próprias cidades quando as procuramos através dos jardins.
Há um desafio que nos propõe toda esta experiência: o desafio de não deixarmos as cidades desencontrarem-se de si mesmas e de não nos perdermos nas perspetivas que nos ajudam a não estarmos em perdas sempre que existem distâncias geográficas entre diferentes realidades.
Há que recordar a observação das vinhas, a observação das ordens dos pomares e das hortas que nos surgem numa mágica geometria que define as propriedades e, que bem concretizado o trabalho do agrimensor de onde deriva o topógrafo, e o quanto ele foi capaz de nos transmitir as contrações que o mundo tem sofrido.
Mas os seres humanos transformaram tão intensa e rapidamente a paisagem que resultou no surgimento de novas épocas com outros fardos globais. E precisamos absolutamente de entender que falar sobre o campo não é deixar de falar sobre o urbano, e mesmo que o problema não tenha solução imediata, a maneira como o entendemos apressa-a.
Ainda vivi no campo, no Lumiar. A quinta fazia-se por ali, em origens muito, muito antigas, ainda não num tempo de velocidade da poluição. O galo reaparecia todas as manhãs e vinha em socorro das horas certeiras, cantando. E nós sempre a procurar os bons ares dos campos, aqueles que nos curavam as doenças do respirar. E nós sempre à espreita das cidades, onde também se abriam e abrem outros ciclos, outras relações.
E agora, qual é o projeto? Qual o novo olhar informado pela consciência de reinterpretar o urbano sem perder o campo?

Talvez haja que acender uma luz!
Temos tudo pela frente na relação connosco, com os outros, com o mundo, com o oposto da tragédia, com a participação na libertação coletiva que nos aproxima dos momentos fundadores da liberdade e do equilíbrio.
Teresa Bracinha Vieira
Eu gosto do campo. Nasci no campo numa vila da beira trasmontana, embora viva numa cidade há mais de 40 anos. Ainda me lembro que no tempo das ceifas eu e outros miúdos andávamos em cima do “trilho” puxado por um burro que em círculo ajudava a pisar as medas do trigo para separar a palha do grão e isto era uma espécie de carrossel para gáudio da pequenada! Também me lembro das caminhadas com a minha avó a caminho do alto da serra através de um atalho, autêntico caminho de cabras, e o supremo êxtase era ver o nascer do Sol em pleno mês de Agosto.
Procuro sempre, neste blogue e em agosto, escrever sintéticos contos passados no campo. Quando o faço, arriba-me uma “brincadeira” diferente no ato de aprender com as mondas, as ceifas, as empas, as vindimas e naqueles seus jeitos de pegar o mundo. Por lá, pelo Douro, cheguei a acreditar que o vento se podia guardar em caixinhas. Ainda guardo uma delas.
Grata por partilhar o seu gosto pelo campo!