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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Artigos de Opinião

O CALCANHAR DE AQUILES


FERNANDO GIL
por Guilherme d’Oliveira Martins

A realização na Fundação Calouste Gulbenkian do Colóquio Internacional sobre Fernando Gil foi oportunidade para uma justa homenagem a uma referência fundamental do pensamento filosófico português e europeu. Graças à iniciativa de Filomena Molder, António Marques e Diogo Pires Aurélio houve oportunidade para lembrar o legado riquíssimo de um professor cuja obra deve ser lembrada e aprofundada. Tive o grande gosto e honra de ter privado e colaborado com o filósofo, não só durante o “Balanço do Século”, um ciclo notável impulsionado por Mário Soares, mas também em longas reflexões sobre o pensamento contemporâneo, em especial no debate essencial sobre a “Ciência como Cultura”, desenvolvido com José Mariano Gago. Também recordo a sua ideia sobre a necessidade de um Instituto de Estudos Avançados, à semelhança de Princeton, que em boa hora a Fundação Gulbenkian está a desenvolver sob a sábia orientação de Miguel Tamen. Lembro os nossos encontros, ora em Belém ora em Paris, em almoços frugalmente inesquecíveis na Brasserie LIPP em Saint Germain-des-Prés… Fernando Gil era enciclopédico, e foi um dos animadores da publicação da Einaudi em Portugal, pela mão de Vasco Graça Moura. Assim, estava sobretudo preocupado com o estudo das evidências que nos cercam, entre provas, crenças e convicções. “Mimésis e Negação” é uma obra-prima, que exige releitura. E tudo culmina na grande literatura, de Bernardim a Camões, através da colaboração com Helder Macedo em “Viagens do Olhar”.

As palavras de Jean Petitot na Conferência, transmitidas em vídeo, permitiram um balanço geral sobre o notável percurso intelectual de Fernando Gil e sobre uma herança riquíssima que nos deixa. Perante a tensão entre fundação e fundamento ou entre crença e convicção, impõe-se a obrigação de uma boa evidência, enquanto exposição ao desconhecido e como diferença bem presente na incerteza da viagem, segundo a modalidade do possível e do contingente, mais do que da necessidade. Como dirá em “Viagens do Olhar”: a história cumpre-se e a viagem abre à descoberta. “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo”, segundo a fórmula de Camões pela boca de Vénus. Com grande coerência, ouvimos logo em 1961 em “Aproximações Antropológicas” esta afirmação: “Como sujeito racional exijo conhecer, como sujeito sensível exijo comunicar, como sujeito ético exijo valores. Conhecer, comunicar, valorar implicam movimentos da consciência para fora de si mesma, referência a objetos exteriores ao sujeito, movimentos específicos que visam a plenitude e não impulsos cegos”.

Mas é na relação com a arte que a evidência se manifesta em todo o esplendor. Em “o belo como excesso de existir” há um encontro natural com Leibniz, do mesmo modo que as origens do Renascimento Português se exprimem na convergência com Helder Macedo. E .a perplexidade sobre acontecimentos trágicos de 11 de setembro (no alerta feito com Paulo Tunhas) corresponde à consciência de uma evolução perturbadora que chega aos acontecimentos atuais do mundo. A crença é tendencialmente ideológica e a convicção diz respeito à verdade.” A felicidade de conhecer prolonga a energia da vida, a convicção é essa mesma felicidade”. Ao ouvirmos o filósofo percebemos a sua paixão. A convicção supõe uma atividade do espírito, uma ação do Eu. Estamos no cerne da atitude do filósofo.    

 

Comentário sobre “O CALCANHAR DE AQUILES

  1. Obrigada Senhor Professor Doutor G. Oliveira Martins, por ter trazido de novo a este blog, o ilustre Fernando Gil!
    Estou a lê-lo. É dificílimo para mim, que não costumo estudar filosofia, mas concordo que “a crença é tendencialmente ideológica e a convicção diz respeito à verdade” , …e que a “convicção supõe uma atividade do espírito, uma ação do Eu”. …“Mas é na relação com a arte que a evidência se manifesta em todo o esplendor” Será? Eu recorreria, neste último caso a Camões “Melhor é experimentá-lo …”
    Para mim, é muito mais convicto e espiritual, abrir a janela do quarto de madrugada, ouvir os pássaros a chilrear e observar o Sol a nascer. É do âmbito da experiência, e liga-me, conecta-me com o Universo. Em A. Einstein, surgiu-lhe uma espiritualidade semelhante: “…uma espécie de alegria intoxicada e de espanto face à beleza e grandiosidade deste mundo, um mundo sobre o qual o homem pode apenas construir uma noção superficial. Esta alegria é o sentimento a partir do qual a verdadeira investigação científica se mantém, mas também encontra a expressão no canto dos pássaros.” Será que esta espiritualidade existe, pelo menos em parte, desde o homem primitivo? Creio que sim. O homem primitivo observava o ambiente que o rodeava.
    Em B. Malinowski (1884-1942), “Magia, Ciência e Religião”, pode ler-se “ Vou convidar os meus leitores a deixarem as quatro paredes do gabinete do teórico e virem ao ar livre do campo antropológico…”

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