
FERNANDO GIL
por Guilherme d’Oliveira Martins
A realização na Fundação Calouste Gulbenkian do Colóquio Internacional sobre Fernando Gil foi oportunidade para uma justa homenagem a uma referência fundamental do pensamento filosófico português e europeu. Graças à iniciativa de Filomena Molder, António Marques e Diogo Pires Aurélio houve oportunidade para lembrar o legado riquíssimo de um professor cuja obra deve ser lembrada e aprofundada. Tive o grande gosto e honra de ter privado e colaborado com o filósofo, não só durante o “Balanço do Século”, um ciclo notável impulsionado por Mário Soares, mas também em longas reflexões sobre o pensamento contemporâneo, em especial no debate essencial sobre a “Ciência como Cultura”, desenvolvido com José Mariano Gago. Também recordo a sua ideia sobre a necessidade de um Instituto de Estudos Avançados, à semelhança de Princeton, que em boa hora a Fundação Gulbenkian está a desenvolver sob a sábia orientação de Miguel Tamen. Lembro os nossos encontros, ora em Belém ora em Paris, em almoços frugalmente inesquecíveis na Brasserie LIPP em Saint Germain-des-Prés… Fernando Gil era enciclopédico, e foi um dos animadores da publicação da Einaudi em Portugal, pela mão de Vasco Graça Moura. Assim, estava sobretudo preocupado com o estudo das evidências que nos cercam, entre provas, crenças e convicções. “Mimésis e Negação” é uma obra-prima, que exige releitura. E tudo culmina na grande literatura, de Bernardim a Camões, através da colaboração com Helder Macedo em “Viagens do Olhar”.
As palavras de Jean Petitot na Conferência, transmitidas em vídeo, permitiram um balanço geral sobre o notável percurso intelectual de Fernando Gil e sobre uma herança riquíssima que nos deixa. Perante a tensão entre fundação e fundamento ou entre crença e convicção, impõe-se a obrigação de uma boa evidência, enquanto exposição ao desconhecido e como diferença bem presente na incerteza da viagem, segundo a modalidade do possível e do contingente, mais do que da necessidade. Como dirá em “Viagens do Olhar”: a história cumpre-se e a viagem abre à descoberta. “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo”, segundo a fórmula de Camões pela boca de Vénus. Com grande coerência, ouvimos logo em 1961 em “Aproximações Antropológicas” esta afirmação: “Como sujeito racional exijo conhecer, como sujeito sensível exijo comunicar, como sujeito ético exijo valores. Conhecer, comunicar, valorar implicam movimentos da consciência para fora de si mesma, referência a objetos exteriores ao sujeito, movimentos específicos que visam a plenitude e não impulsos cegos”.
Mas é na relação com a arte que a evidência se manifesta em todo o esplendor. Em “o belo como excesso de existir” há um encontro natural com Leibniz, do mesmo modo que as origens do Renascimento Português se exprimem na convergência com Helder Macedo. E .a perplexidade sobre acontecimentos trágicos de 11 de setembro (no alerta feito com Paulo Tunhas) corresponde à consciência de uma evolução perturbadora que chega aos acontecimentos atuais do mundo. A crença é tendencialmente ideológica e a convicção diz respeito à verdade.” A felicidade de conhecer prolonga a energia da vida, a convicção é essa mesma felicidade”. Ao ouvirmos o filósofo percebemos a sua paixão. A convicção supõe uma atividade do espírito, uma ação do Eu. Estamos no cerne da atitude do filósofo.
Obrigada Senhor Professor Doutor G. Oliveira Martins, por ter trazido de novo a este blog, o ilustre Fernando Gil!
Estou a lê-lo. É dificílimo para mim, que não costumo estudar filosofia, mas concordo que “a crença é tendencialmente ideológica e a convicção diz respeito à verdade” , …e que a “convicção supõe uma atividade do espírito, uma ação do Eu”. …“Mas é na relação com a arte que a evidência se manifesta em todo o esplendor” Será? Eu recorreria, neste último caso a Camões “Melhor é experimentá-lo …”
Para mim, é muito mais convicto e espiritual, abrir a janela do quarto de madrugada, ouvir os pássaros a chilrear e observar o Sol a nascer. É do âmbito da experiência, e liga-me, conecta-me com o Universo. Em A. Einstein, surgiu-lhe uma espiritualidade semelhante: “…uma espécie de alegria intoxicada e de espanto face à beleza e grandiosidade deste mundo, um mundo sobre o qual o homem pode apenas construir uma noção superficial. Esta alegria é o sentimento a partir do qual a verdadeira investigação científica se mantém, mas também encontra a expressão no canto dos pássaros.” Será que esta espiritualidade existe, pelo menos em parte, desde o homem primitivo? Creio que sim. O homem primitivo observava o ambiente que o rodeava.
Em B. Malinowski (1884-1942), “Magia, Ciência e Religião”, pode ler-se “ Vou convidar os meus leitores a deixarem as quatro paredes do gabinete do teórico e virem ao ar livre do campo antropológico…”