Há muitos medos que pertencem a gerações de medos que esmagam a vida: entre estes, o medo da própria liberdade, tantas vezes eficaz martelo para a domesticação, como resultado do poder deste medo maior.
Incutir o medo da noite e da não-noite, da solidão e da companhia, do medo e da falta dele, é tentar evitar absolutamente que possamos ir além, sabendo que a verdade não está perto.
Há uma grosseria com que se manifestam os sinais dos tempos se os querem fazer crer apenas como tempos minados pelo medo.
Há uma grosseria nossa se perdemos a vigilância crítica sobre aquilo que em nós se visa piratear, depreciar ou mercantilizar, usando o medo para nos impedir de entender que podemos modificar o mundo e que aquele medo fantasmático, que impõe o medo do futuro, não está do lado da razão.
E também há o medo tornado agente de governação, que pretende inocular muitos medos irracionais e instrumentalizados para nos controlar até as perceções e assim justificar as decisões políticas.
Depois, também há o medo da insegurança que conquista rapidamente terreno à liberdade e é um medo terrivelmente contagioso.
E também há um medo que se herda, um medo interiorizado, um medo inconsciente, e talvez por essa razão, as gerações sabem tão pouco acerca dele.
E também há aquele medo vulgar, com o qual estamos, do começo ao fim do seu tempo.
E depois há o medo com que nos vestimos nas diferentes idades da vida, que se torna em nós companheiro de caminho e que pode ser semente de uma arriscada flor, quando tudo, tudo o que amamos é desejo e emergência.
E há o medo de que as pedras se unam umas contra as outras sem argamassa ainda que todos ignorássemos essa possibilidade.
E há o medo do abismo que é tão profundo que pode até colonizar o que não existe entre a zona das perguntas e a zona das respostas.
Há ainda um medo com preço de silêncio quando, por fim, estamos juntos e somos todos iguais numa enorme lição de humildade e conhecedores da invulnerabilidade da luz.
Teresa Bracinha Vieira