Há dois dias na nossa vida que não têm 24 horas: aquele em que nascemos e morremos. Poucas coisas são tão certas na nossa existência como o dia em que viemos e partimos, assim como o envelhecimento. Esta inevitabilidade nunca impediu os humanos de tentarem fintar o destino.
Este querer humano e finito de desafiar o infinito, este desejo do “jovem para sempre” ou “eternamente jovem” sempre existiu, perdura e permanece, fomentado por uma crença na ciência e tecnologia, por vezes fanática.
Enquanto jovens, temos um sentimento de possibilidades ilimitadas, infinitas, de uma duração infindável, em que o tempo, o envelhecimento e o fim são conceitos abstratos, privados de sentido, onde o ânimo, a avidez e a esperança nos dão uma sensação subjetiva de perpetuidade, permitindo-nos viver uma vida futurista promissora e sedutora, porque é muito mais o que está por vir do que o já vivido.
O sonho da eterna juventude vai-se desvanecendo e rarefazendo com o envelhecimento e a morte daqueles que nos eram (e são) mais próximos, provando a nossa finitude, mortalidade e vulnerabilidade, havendo um entendimento mais perspicaz do tempo que foge e nos falta e da inelutabilidade do fim da vida como a conhecemos.
Mas tentamos sempre uma utopia que supere esse dilema, investigando, ganhando e usando novos argumentos científicos.
Cabe referir, a este propósito, entre outros, o contributo de Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostaks, Prémio Nobel da Medicina, em 2009, pela sua investigação nos telómeros, estruturas que cobrem as pontas dos cromossomas e resguardam o material genético durante a divisão celular, que vão decrescendo, com a idade, até que as células deixam de conseguir dar origem a outras novas.
Espera-se que o acompanhamento e controlo do processo permita parar ou reverter os efeitos de envelhecer, havendo já o retrocesso no envelhecimento de ratinhos, através da manipulação de uma enzima que regula o funcionamento dos telómeros, atrasando os sinais e sintomas da idade, permitindo reaver a forma perdida, com a restauração da fertilidade, renovação do pelo, o aumento do tamanho do cérebro e melhoria da capacidade de aprendizagem. O maior desafio será transpor tais resultados para os humanos, sem causar efeitos acessórios inconvenientes.
Ao que parece, segundo os especialistas, já estivemos mais longe de encontrar o remédio da eterna juventude e longevidade, havendo quem ingira, no dia a dia, pílulas para nunca morrer, pratique criogenia para reviver, falando-se ser possível vir a haver, neste século, comprimidos que nos levem até aos 200 anos.
Porém, continuamos a não ver mais o nosso fim do que vemos o nosso começo, mesmo para quem pense que estamos mais perto de encontrar o elixir da “sempre eterna” juventude.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 258 de 1 de maio de 2026