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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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"Le Rayon Vert", de Eric Rohmer

“Le Rayon Vert” – o mundo exterior e o mundo interior transformam-se num só

“We sail within a vast sphere, ever drifting in uncertainty, driven from end to end… Nothing stays for us. This is our natural condition, and yet contrary to our inclination; we burn with desire to find solid ground and an ultimate shore foundation whereon to build a tower reaching to the Infinite. But our whole groundwork cracks, and the earth opens to abysses”, Pascal (Tester 2008, 70)

A cidade e os espaços nos filmes de Eric Rohmer trazem a possibilidade da confirmação ou realização de desejos e completam, mesmo que fugazmente ou transitoriamente, aquilo que falta a cada personagem. Afirmam sobretudo incertezas e o acaso como destino, que se manifesta através dos caminhos perdidos de uma cidade, do movimento da natureza e das paisagens desmedidas das montanhas e do mar.

Le Rayon Vert (Eric Rohmer, 1986) abre-se como sendo um verdadeiro documentário que segue Delphine na sua procura por um sentido, num espaço de tempo em que tudo e todos parecem estar contra a sua vontade. Existem momentos, em que os espaços se recusam a abrir qualquer horizonte – há espaços por onde Delphine passa que trazem momentos e encontros indesejados.

O que salva Delphine é a cidade que percorre, e onde existem espaços para andar, prédios altos, casas isoladas, jardins, e existe a fácil ligação ao mar, à natureza e à montanha.

Tal como no filme Le Signe de Lion (Eric Rohmer, 1959), a história segue Delphine num espaço intemporal – parece que o tempo parou à sua volta. A cidade e os espaços que Delphine habita são usados como símbolo do caminho de encontro com a luz. Delphine tenta procurar alguém ou um indício exterior que a salve.

Joël Magny no livro Eric Rohmer escreve que todos os pontos de referência de Delphine estão perdidos e a sua vida está em suspense. Durante aqueles dias de verão Delphine sente-se invisível – o seu trabalho está interrompido, as férias planeadas foram canceladas, os seus amigos e a sua família não a entendem. Só os pequenos sinais (de sorte e de azar) espalhados pelos sítios que passa parecem entender a sua busca. Magny explica que neste filme, o espaço está mais difuso e disperso que nunca, animado por movimentos centrífugos e centrípetos – Delphine movimenta-se de Paris a Cherbourg; de Cherbourg a Paris; de Paris a La Plagne; de La Plagne até Paris; de Paris a Biarritz; de Biarritz a Saint-Jean-de-Luz.

Para Magny, este filme é uma indagação entre o desejo de reencontro e a necessidade de solidão, entre a necessidade de pertencer e a possibilidade de aceder ao universo da fantasia onde tudo é possível.

Vittorio Hösle no livro Eric Rohmer. Filmmaker and Philosopher, afirma que a necessidade de sinais é humana, mas neste filme, a confiança e a crença de Delphine na existência de algo que transcende o próprio ser humano irá manifestar-se exteriormente em algo divino – e os espaços por onde passa irão
levar Delphine a esse momento de redenção.

O mundo exterior e o interior da personagem transformam-se, por isso num só – o espaço constrói o que Delphine é, mas Delphine também constrói aquilo que a rodeia.

O filme mostra, assim os espaços percorridos de uma personagem e a sua inadequação em relação ao mundo e aos outros. Delphine caminha para o infinito. E o mundo exterior, neste caso a natureza acaba por revelar o que é verdadeiro e confirmar o que Delphine deseja. Só no final, no limite da incerteza e da possibilidade do raio verde, Delphine se abre ao desconhecido.

Ana Ruepp

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