“História da Guerra do Peloponeso” de Tucídides é uma obra referencial dos clássicos na civilização europeia. Na coleção de clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian é um livro fundamental, com tradução do Professor Raul Miguel Rosado Fernandes.
A “História da Guerra do Peloponeso” de Tucídides é um dos livros maiores da nossa civilização. Começada em 431 a.C., a guerra só viria a terminar em 404 a.C., mas Tucídides apenas a descreve até 411. É difícil dizer qual o motivo exato dessa brusca interrupção. Parece, no entanto, que o historiador teria já recolhido todos os materiais necessários à conclusão da obra. Um dos argumentos que tem sido aduzido neste sentido tem a ver com o facto de Xenofonte ter começado as “Helénicas” no ponto exato em que termina a “História” de Tucídides. Já o livro VIII foi concebido diferentemente dos livros anteriores, não tendo provavelmente tido o autor oportunidade para aplicar o método anterior e para fazer uma redação mais cuidada.
Numa rápida enumeração dos temas dos oito livros que constituem a obra de Tucídides, verificamos que o livro I introduz a narrativa, e fala do método e dos preparativos da guerra. O livro II trata dos três primeiros anos do conflito, incluindo a oração fúnebre de Péricles e a peste de Atenas. Os três livros seguintes abrangem três períodos até à paz de Nícias. Por fim, os livros sexto a oitavo correspondem à expedição da Sicília até à estada de Alcibíades em Esparta; culminando no desastre em terra e no mar dos atenienses na Sicília. Para se compreender a Guerra do Peloponeso, temos de nos reportar à ascensão e grandeza da talassocracia de Atenas, que obrigou Esparta a responder ao risco de hegemonização ateniense e da Liga de Delos. Tal aliança, visando resistir aos persas, transformou-se no embrião de um império. No sistema grego, Atenas tinha o domínio dos mares e Esparta a superioridade em terra. Assim, a potência marítima ateniense preparar-se-ia para dominar a força terrestre de Esparta, oligárquica e conservadora, cabeça da Liga do Peloponeso, que precisava de prevenir-se do risco de uma revolta social dos hilotas, que poderia pôr em causa a sua sobrevivência. No entanto, o poder marítimo revelar-se-ia insuficiente, o que permitiria a vitória de Esparta e uma profunda mudança na balança do poder na galáxia grega. Tucídides considera que foi o rompimento da balança do poder que terá sido o detonador para que Esparta declarasse guerra a Atenas. Daí a clareza do diagnóstico: “a verdadeira causa desta guerra é a que mais tem sido ignorada. O crescimento do poderio de Atenas e o alarme que provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável”.
O discurso de homenagem aos mortos, de Péricles, é central na obra. É exemplo de pedagogia cívica republicana. Pode dizer-se que aqui se define a marca de valores de Atenas. “A nossa constituição política nada tem a pedir meças às leis que regem os nossos vizinhos; longe de imitar os outros, damos o exemplo a seguir. Do facto de o Estado ser entre nós administrado no interesse da massa e não duma minoria resulta que o nosso regime tenha tomado o nome de democracia. No que respeita aos diferendos particulares, a igualdade é assegurada a todos pelas nossas leis, mas no que toca à participação na vida pública, cada um obtém a consideração pelo seu mérito, e a classe a que pertence importa menos que o seu valor pessoal; enfim, ninguém é prejudicado pela pobreza e pela obscuridade da sua condição social, se pode prestar serviços à cidade. A liberdade é a nossa regra no governo da república e nas nossas relações quotidianas a suspeição não tem lugar; não nos agastamos contra o vizinho, se ele age pela sua cabeça; por fim, não usamos humilhações que, por não levarem a qualquer perda material, não são menos dolorosas pelo espetáculo que dão” (II, XXXVII). “Eis no que nos distinguimos: sabemos, de cada vez, assumir a audácia e a reflexão nas nossas empresas” (II, XL).
Para Tucídides o conceito de “equilíbrio do poder” revela-se fundamental, mais do que a noção de ameaça ou de desafio. As repercussões das ideias e do método do historiador grego no pensamento moderno e contemporâneo são notáveis, com repercussões evidentes no próprio Maquiavel. Afinal, usando o rigor histórico, o escritor procura na complexidade dos acontecimentos perceber como as relações são decisivas. Falamos, sobretudo, do confronto de poderes e das tensões que se estabelecem entre eles. As questões de poder estão sempre presentes nas análises de Tucídides. E, sabendo-se que só o poder limita o poder e que apenas centros de poder atuantes podem gerar uma sociedade organizada através do primado da lei e da existência de uma legitimidade de ação, compreende-se a importância da obra de Tucídides como premonitória em relação ao primado do direito na cena internacional.
Guilherme d’Oliveira Martins
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