Não será a ciência um punho erguido contra o silêncio do universo, a pedir-lhe que fale?
Há a esperança, baseada na ideia de que, na penumbra das estrelas de um cosmos silencioso, existem outras vidas com um olhar virado para nós, observando-nos.
Dada a colossal quantidade de estrelas com planetas, e mesmo que apenas algumas tenham vida e um número menor inteligência e tecnologia, o paradoxo de Fermi pergunta: sendo o universo tão vasto e propício à vida, onde estão todos ou outros? Devíamos ter uma galáxia repleta de civilizações extraterrestres, o que não sucede, até agora, pela ausência de sinais. Daí o paradoxo.
Quais as respostas? Há várias: insuficiência do tempo de investigação e de procura, olhar não voltado para os locais espaciais certos, elementos astronómicos recolhidos não probatórios de haver vida inteligente, tempo diminuto e desproporcionado no confronto da civilização tecnológica do nosso planeta com o começa de vida na Terra, desconhecimento de assinaturas de energia residual (sob a forma de calor) de civilizações tecnologicamente avançadas, sondas terrestres não encontraram artefactos, materiais ou sinais de outras civilizações (ou deixados por visitantes), radioastronomia deficiente para provar que outras civilizações viajem entre as estrelas.
Há outras explicações possíveis, uma delas a hipótese da Floresta Negra: civilizações avançadas, precavidas e silenciosas, dissimuladas entre as estrelas, como modo de sobrevivência, povoam o universo, tementes de predadores invisíveis, transformando a galáxia numa “floresta escura”, onde cada civilização é um caçador oculto, atacando qualquer outra que se exponha.
A resposta mais tradicional chama-se o Grande Filtro: alude a civilizações tecnológicas, como a nossa, que podem chegar até um ponto em que se autodestroem, por exemplo, com a bomba nuclear, o que também pode suceder com a tecnologia associada à inteligência artificial, pelo que, por analogia, o mesmo pode acontecer com civilizações extraterrestres com um grau de desenvolvimento igual ou mais avançado.
Também há a hipótese do conceito de Panspermia, segundo a qual a vida na Terra surgiu com a vinda do Cosmos de poeira espacial, asteroides, cometas, meteoritos, planetoides, naves espaciais contaminadas por microrganismos, moléculas orgânicas, indiciando estar universalizada por todo o universo.
Sem excluir a Equação de Drake, que calcula o número de civilizações extraterrestres ativas na nossa galáxia (Via Láctea) com que poderemos comunicar, que de nula, controversa, um palpite, se vai paulatinamente consensualizando.
E há os objetos interestelares de origem alienígena, asteroides e cometas, vindos de fora do sistema solar, viajando pelo espaço interestelar e pelo nosso, sem estarem gravitacionalmente ligados ao sol, a uma velocidade que, de tão alta e extraordinária, nos permite perceber que vieram de outra região da galáxia.
Conhecemos três objetos interestelares, um em 2017 (Oumuamua), outro em 2019 21/Borisov, o último em 2025 (31/ATLAS), que cativaram a comunidade científica, o que não significa que sejam raros, dado que só os descobrimos agora, porque temos tecnologia que nos permite detetá-los e vê-los.
Se, pelo que conhecemos, as leis da física são as mesmas em todo o universo, mesmo havendo uma enorme diversidade nos caminhos que a evolução segue, podemos ter como adequado que a imaginação coletiva crie extraterrestres vocacionados para o encontro connosco, pois a Humanidade e o Universo parece existirem para comunicar.
Se assim é, não obstante a incerteza, a nossa finitude e imperfeição, ao dissiparmos mistérios exteriores, revelámos outros, decorrentes da inquietação de existirmos no meio de um Cosmos, um Universo silencioso, com a expetativa de companhia, mas sem nenhuma certeza.
Continuo convicto de que em tempos vindouros entraremos em contacto com outras civilizações, ou o inverso, de momento inacessíveis ou invisíveis.
Cumulam-se, gradualmente, indícios de uma vida vinda do Cosmos, o que a astrobiologia corrobora.
Lamento não estar cá para o testemunhar.
Por enquanto, o grande silêncio do Cosmos permanece!
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 266