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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Imagem do filme "Stromboli" (Rossellini, 1949)

“Stromboli”: a profundidade divina e a presença dos elementos construídos

“I was found of them that sought me not; I was made manifest unto them that asked not after me” (New Testament, St. Paul’s letter to the Romans, chapter 10 verse 20)

No filme Stromboli (Rossellini, 1949) os objetos, os lugares e os elementos naturais têm uma importância maior. Todos os elementos físicos transformam as personagens – as paredes grossas, os pátios, as ruas estreitas, as encostas íngremes, o vulcão ativo e o mar infinito – e parecem falar acerca da presença dominadora de um mundo que aprisiona Karen num labirinto perpetuamente fechado. (Rohmer 2020, 199)

O filme segue a história de uma mulher refugiada, Karen, que se vê obrigada a casar com um soldado italiano e a viver para a ilha de Stromboli como mulher de pescador.

Os espaços do filme são encerrados e aprisionam. Karen está sempre entre muros grossos, entre a terra e o mar, entre portas, janelas e arame farpado. Os sentimentos, sonhos e os seus desejos são sempre vividos entre impedimentos, sem nunca conseguir alcançar a plenitude. O caminho solitário de Karen faz-se entre pedras e espinhos.

Na opinião de Maurice Schérer no artigo ‘Roberto Rossellini: Stromboli’, a grandeza e a profundidade divina, deste filme procede, não de palavras, nem de gestos de desespero, mas através da presença dos elementos construídos, da paisagem selvagem, da lava, das ondas e dos peixes perfurados pelos arpões.

O desejo de fugir e de alcançar algo que vai além dos seus limites está sempre presente, mas a viagem a fazer será cheia de obstáculos (labirintos, portas trancadas, mar a perder de vista), solitária e desoladora. E a presença do vulcão sempre ativo é a prova dessa dificuldade. Karen está presa porém, existem alguns elementos que representam o seu desejo de liberdade (as janelas abertas, a praia e os barcos).

Já muitos abandonaram aquela ilha e até o padre confessa que fica contente sempre que alguém regressa e queira ficar. As casas cúbicas caiadas, abandonadas ou em ruína, as sombras marcadas, os arcos sem fundo, os caminhos estreitos, as ruas desertas e a torre da igreja dominam aquela paisagem deserta, dura e árida.

A aldeia fica confusa e emaranhada a partir do momento que Karen se apercebe que nunca vai pertencer àquele lugar. Os espaços vão assim revelando os seus passos, as suas decisões, os seus desejos e o seu futuro. A dimensão da vontade de Karen transparece nas formas que habita – há momentos de expansão e de esperança (a casa arrumada e pintada) mas também existem ocasiões de desespero, frustração e medo (a casa trancada e a queda da lava).

O vulcão representa a necessidade de libertação, a espera do milagre que virá com o medo e com a incerteza. Não é o símbolo de um poder a que Karen se deve submeter, pelo contrário, é a personificação sagrada de uma redenção.

Perante tal visão avassaladora, Karen só tem duas hipóteses – a libertação ou a morte.

Sendo assim, é através dos elementos construídos e da paisagem do lugar que a história de Stromboli se revela. Os gestos e as palavras ficam vazios perante as formas tangíveis, fechadas e avassaladoras que revelam a força do sublime.

Ana Ruepp

Comentário sobre ““Stromboli”: a profundidade divina e a presença dos elementos construídos

  1. Obrigada Senhora Professora
    Ana Ruepp
    Desta vez, fala-nos do filme Stromboli, que muito apreciei “é através dos elementos construídos e da paisagem do lugar que a história de Stromboli se revela”.
    Porém, existe uma velha história, com a qual, eu me identifico na plenitude, talvez seja demasiado longa, mas diz-me tanto que não resisto a transcrevê-la: [….É a história do rabino Eisik, de Cracóvia….Esse piedoso rabino, Eisik de Cracóvia, teve um sonho que lhe mandava que fosse a Praga: aí, sob a grande ponte que leva ao castelo real, descobriria um tesouro escondido. O sonho repetiu-se três vezes, e o rabino decidiu-se a partir. Chegado a Praga, encontrou a ponte, mas guardada noite e dia por sentinelas; Eisik não ousou investigar. Girando sempre pelos arredores, atraiu a atenção do capitão dos guardas; este perguntou-lhe amavelmente se perdera alguma coisa. Com ingenuidade, o rabino contou-lhe o seu sonho. O oficial explodiu em gargalhadas: «Realmente, homenzinho!», disse-lhe ele, «tu usaste os teus sapatos para percorrer todo esse caminho simplesmente por causa de um sonho? Que pessoa, de posse da sua razão, acreditaria num sonho?» O próprio oficial ouvira uma voz em sonhos: « Falava-me de Cracóvia, ordenando-me que lá fosse e procurasse um grande tesouro na casa de um rabino cujo nome era Eisik, filho de Jekel. O tesouro devia ser descoberto num recanto poeirento, onde estava enterrado por detrás do fogão.» Mas o oficial não tinha qualquer fé nas vozes escutadas em sonhos: era uma pessoa de juízo. O rabino inclinou-se profundamente, agradeceu-lhe e apressou-se a regressar a Cracóvia. Cavou no canto abandonado da casa e descobriu o tesouro que pôs fim à sua miséria.
    «Assim, pois», comenta Heinrich Zimmer, «dessa maneira, o verdadeiro tesouro, o que põe fim à nossa miséria e às nossas provações, nunca está muito longe, não é preciso ir buscá-lo a um país longínquo, jaz enterrado nos recessos mais íntimos da nossa própria casa, isto é do nosso próprio ser. Está atrás do fogão, o centro que fornece de vida e calor, que comanda a nossa existência, o coração do nosso coração, se soubermos cavar. Mas há então o facto estranho e constante de que é só após uma viagem piedosa a uma região longínqua, num país estrangeiro, sobre nova terra, que o significado dessa voz interior que guia a nossa procura poderá revelar-se-nos…»
    E é este o sentido profundo de toda a verdade redescoberta; este poderia ser o ponto de partida de um novo humanismo, à escala mundial.] M. Eliade, 1953.
    Peço desculpa pelo longo comentário.

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