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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Milagre ao sabor do vento

Folhetim de Verão – Capítulo IV

Seguiram ao sabor do vento. Mas o desânimo era completo. A fome apertava como nunca e a fraqueza dos membros levava os marinheiros a sentirem-se impotentes. Jorge de Albuquerque mantinha o cuidado de prover a tudo. Comandava, consolava, animava, comunicava a esperança à companhia inteira. Embarcara doente no Brasil, mas agora depois de tanto sacrifício mantinha a determinação e jamais se lhe ouvia qualquer queixa. Esse forte empenhamento causava espanto em todos. E quando lhe perguntavam, dizia estar certo de que não chegariam a um porto qualquer, mas a  Lisboa. Muitos dos companheiros recordavam que essa tempera era digna de um sobrinho do grande Afonso de Albuquerque, senhor dos mares. O vento rijo rompeu entretanto as velas e desapegou-se o leme, quebrando-se o ferro que restava e rompendo-se os cabos que o atavam. O desespero foi total, e a ninguém ficou qualquer réstia de esperança. A sombra da morte pela fome ficou como uma certeza absoluta. Num impulso surpreendente, animado de uma força inexplicável, Jorge de Albuquerque levantou-se e pegando num livro tirou duas imagens de Cristo e da Virgem e pegou-as no mastro, chamando os companheiros para a sua beira, designando a cada um pelo seu nome próprio e começou a pregar, afirmando a certeza de que se salvariam. Em volta, muitos dos que ali estavam, desgrenhados, magríssimos e nus, ouviam-no sem o entenderem. Depois, às escondidas fez o testamento, acrescentando os papeis necessários que acomodou num barril pequeno, disposto a lançá-lo  ao mar quando visse chegado o momento derradeiro. Mas isto fez ele com tão grande sigilo que nenhum dos outros o soube. Entretanto, imaginou o modo de substituir o leme, com uma espécie de espadela, da qual pouco proveito conseguiram tirar. No dia 27 de setembro começou a necessidade de lançarem às ondas os primeiros companheiros mortos de fome. Alguns dos homens nesse transe pediram a Albuquerque permissão para comerem aqueles cadáveres. Ao ouvir semelhante solicitação, cobriram-se de água os olhos do capitão general. Não, não podia ser, não o consentiria, enquanto vivesse, mas se morresse dava-lhes licença de o comer a ele. No desespero, lembraram-se então de arrombar a nau, para acabarem de vez. Também Albuquerque impediu que o fizessem. Sendo todos uns espetros vizinhos da morte brigaram severamente, tendo Jorge Albuquerque uma mágoa infinita, o que o levou a chamá-los à razão e à calma. No dia 29, à aurora, avistou-se uma nau, que chamaram alvoroçadamente, mas que nada respondeu. Mais três dias assim passaram no trabalho continuo e inglório de dar à bomba. Eis senão quando, a 2 de outubro, por entre neblina pareceu divisarem um pedaço de terra. Mas cerca do meio-dia, não houve dúvida. Deus louvado! Era a serra de Sintra. Lá estava ao cimo das rochas a casa da Senhora de Pena. Contudo, não tinham modo de se aproximar da praia, por a carcaça onde iam não ter governo algum. À medida que se aproximaram de terra alguns preparam umas pranchas para se lançarem às águas e outros fantasiaram construir jangadas. Porém, a costa ali é pedregosa e bravia, e a voz de senso de Albuquerque dissuadiu-os. Em 3 de outubro chegaram próximo do cabo da Roca. Nesse ponto, indo a nau já para dar à costa, passou perto uma caravela que se dirigia para a Pederneira. Suplicaram socorro. – Que Jesus lhes valesse, responderam. Não queriam perder tempo na sua viagem. E seguiram para vante, sem nenhum dó. Pouco depois, avistaram uma barca pequena que navegava para Atouguia. Bradaram de joelhos para lhes valerem e então a barca lá lhes valeu. Vinha a bordo da barca Rodrigo Álvares de Atouguia que ofereceu préstimos sem qualquer reparação, pondo em risco a própria vida. O estado dos da nau era lastimável e logo lhes deram pão, água e frutas, que para si traziam. O senhorio da barca passou-lhes um cabo de reboque com que afastaram a nau da rocha, levando-a até à baía de Cascais, onde chegaram com o sol-posto. Uns desembarcaram ali mesmo e outros em Belém. De noite, a nau ficou amarrada à popa da barca por não ter âncora. No dia seguinte, o Cardeal D. Henrique, que governava o reino, enviou uma galé para trazer a nau rio acima, que fundeou diante da igreja de S. Paulo, onde numerosa gente a foi visitar. Jorge de Albuquerque compensou largamente o senhorio da barca e os que haviam ajudado no salvamento. Desembarcou em Belém e foi à romaria se Nossa Senhora da Luz, pelo caminho de Nossa Senhora da Ajuda. Com grande regozijo, veio D. Jerónimo de Moura, primo de Albuquerque. Encontraram-se os dois parentes, e Jorge Albuquerque perguntou a D. Jerónimo se o reconheceria. Pois eu sou Jorge de Albuquerque. E vós sois meu primo D. Jerónimo, filho de minha tia D. Isabel. Vede pois os trabalhos por que passei… E eis como a Nau Catrineta chegara a bom porto num venturoso milagre…

O relato que acompanhámos, baseia-se no texto de António Sérgio publicado pela Livraria Sá da Costa sob o título “História Trágico Marítima”, correspondendo ao naufrágio da Nau “Santo António”, que provavelmente serviu de base à xácara “Nau Catrineta”. Encontramos a expressão viva da tragédia sentida numa viagem que poderia ter sido feita sem novidade, mas que se tornou um verdadeiro inferno. Era assim o registo da experiência dos navegadores portugueses na incerteza do mar oceano…

(Continua)

>> Nau Catrineta que tem muito que contar… no Facebook

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