auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

A Vida dos Livros

“Países Estrangeiros – Memórias e Viagens”

Países Estrangeiros – Memórias e Viagens” (Guerra e Paz, 2025) de Luís Filipe Castro Mendes é um relato e uma reflexão que demonstram bem como a atividade diplomática pode ilustrar a importância da viagem como diálogo entre culturas e como modo de conhecer melhor a humanidade na sua riqueza e diversidade.

O Prémio Maria Ondina Braga de Literatura de Viagens da Associação Portuguesa de Escritores em cooperação com o Município de Braga constitui o reconhecimento da importância da memória de uma escritora que deu à língua portuguesa um rico contributo centrado no diálogo entre culturas baseado na ideia de viagem e do encontro com a diversidade e o contacto com os outros. Antes do mais, o multilinguismo e a procura de sentido das palavras em cada cultura foi para Maria Ondina (1922-2003) uma marca indelével que revela a importância universal da dignidade humana projetada no diálogo entre línguas e culturas. As suas obras são exemplos significativos dessa permanente interrogação em torno da vida das palavras. Como “A China fica ao Lado”, “Estátua de Sal”, “Amor e Morte”, “A Revolta das Palavras”, “Noturno e Macau” e “Vidas Vencidas”. Longe de serem separadores, as fronteiras são exigências de encontro.

Ao vencer a edição deste ano, Luís Filipe Castro Mendes associa o seu nome a um conjunto fundamental, onde se encontram António Mega Ferreira, Afonso Cruz, José Pedro Castanheira ou Dora Gago. Pode dizer-se que o autor de “Países Estrangeiros – Memória e Viagens” (Guerra e Paz) interpreta com grande fidelidade o espírito deste galardão. O livro traça o percurso fascinante de um diplomata, que sempre procurou fazer dos contactos que a vida lhe proporcionou uma descoberta do mundo e da humanidade num momento crucial da Revolução de Abril quando se desenhava o trajeto da democracia portuguesa, num tempo pleno de incertezas. Portugal é a primeira matéria-prima da obra. Depois, vem o mundo e o género humano na sua complexidade. Leitor voraz, o escritor nunca esquece a literatura. E Kavafis pergunta: “Que vai ser de nós sem os Bárbaros / Essa Gente era uma espécie de solução ?” As conjunturas sucedem-se. As independências, Angola 1975, o mundo abre-se. O caminho da Pérsia, o fim gradual da guerra fria, recordações históricas, a velha guerra da Crimeia e a lembrança de que a Federação Russa entrava no ocaso. O percurso constrói-se entre o estrito profissionalismo e as “afinidades eletivas”. A Espanha está no coração. Paris é uma biblioteca inesgotável. No centro da Europa, a queda do muro de Berlim traz-nos a Cacânia de Robert Musil e o renascer do Centro e Leste do velho continente. A Hungria simboliza uma certa melancolia. Superada a fonteira europeia, eis que a Índia obriga a uma nova perspetiva, depois de ter sido na nossa História grande referência mítica. Agora deve ser revisitada à luz de mudanças profundas e inexoráveis. No fundo da memória, quem pode esquecer o dito “Quem viu Goa, não precisa de ver Lisboa”? E o Brasil diz-nos que o Paraíso não está em nenhum lugar da terra, mas no espanto e na surpresa com que enfrentamos a novidade da aventura. Anos muito felizes no Conselho da Europa em Estrasburgo, “por todos aqueles anos que nos anunciavam a catástrofe iminente”. A realidade histórica reserva-nos mil surpresas, como quando alguém se lembrou de confrontar as memórias de Malraux com as atas das conversas que ele efetivamente tivera com Mao Tsé Tung guardadas nos arquivos chineses. “Nada tinham que ver: discursos redondos e prudentes substituíam todos os rasgos épicos atribuídos a Mao, a língua estereotipada dos comunicados oficiais tomava o lugar do verbo inspirado que o escritor e ministro francês atribuíra ao se interlocutor”. Mais importante que a verdade dos factos era a voz do essencial. A viagem está em cada passo, em cada momento… Ao lermos este fascinante percurso, percebemos a essência da literatura, que levava De Maistre ou Garrett a elogiarem a criatividade literária, que poderia ocorrer sem sairmos do nosso quarto, tudo dependendo da riqueza do espírito que a anima. Na diversidade de temas abrangidos nesta obra compreendemos bem que a viagem real ou imaginária é a matéria-prima da arte e da vida.

Guilherme d’Oliveira Martins

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *