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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Xanana Gusmão e Luís Represas

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A Vida dos Livros

Luís Represas e Xanana Gusmão

Lembramos hoje um encontro memorável em Timor Leste com Luís Represas e Xanana Gusmão.

Foi no ano 2000, Timor Leste estava na ordem do dia. Num heroico C-130, ocorreu a viagem do Presidente Jorge Sampaio aos nossos antípodas. Era um tempo inolvidável de paixões fortes, depois de muitos terem descrido sobre a possibilidade da independência timorense. O conhecimento público do massacre de Santa Cruz mudara tudo. Abria-se o tempo da esperança, depois da completa incerteza. Foi uma viagem muito atribulada. Acompanhei o Presidente da República como Ministro da Educação e foi com as escolas, os professores, os estudantes, o país profundo que contactámos. Mas houve um companheiro especial que esteve sempre presente, nessa gesta heroica que nunca esquecerei. A voz de Luís Represas incendiava os corações, mobilizava cada pequena comunidade, cada centelha em prol da liberdade. Há dias, recordei com João Gil,  o autor do extraordinário “Ai, Timor!”, esse magnetismo que fez dessa canção um verdadeiro hino transnacional. (“Calam-se as vozes / Dos teus Avós. / Se outros calam / Cantemos nós”.

Onde quer que chegássemos, todos em uníssono simbolizavam com palavras o querer e a esperança. Hoje, à distância do tempo, sentimos a vertigem da memória como algo único que não viveremos mais. Luís Represas era um colega antigo do velho Pedro Nunes, amigo nosso e de meus irmãos mais novos. Houve, por isso entre nós sempre uma relação boa e próxima. Foi assim até agora, sempre que nos reencontrámos, mas aquela imersão total timorense ficou como um encontro memorável e imperdível. Para além das visitas às escolas e do entusiasmo, houve muitos episódios humanos tocantes, como o daquelas professoras do ensino básico, a quem levámos os óculos de que precisavam. para ler e ensinar. Passara uma geração sem a experiência do ensino das primeiras letras português. Havia dificuldades e falta de tudo e recebemos no ministério uma encomenda de óculos, segundo as necessidades habituais. Foi emocionante a distribuição desses preciosos instrumentos. Várias professoras, com os olhos marejados de lágrimas, agradeciam repetidamente – e formulavam uma perguntava incrédula: Como adivinháramos os óculos de que necessitavam? O entusiasmo era transbordante. O Luís emocionava-se ao ver como um grande abraço era capaz de construir a História. Num movimento incessante não era apenas aquela canção que se tornava um poderoso instrumento de mobilização, mas a sensibilidade do artista e da sua obra riquíssima. Mais do que o autor e intérprete, estávamos perante alguém a quem a língua portuguesa tudo ficava a dever. Não esqueçamos que a experiência dos “Trovante” era o reencontro da cultura atual com as origens trovadorescas do galaico-português, com a sua plasticidade e capacidade inovadora. Desde a “Balada das Sete Saias” até a “125 Azul”, a dizer: “talvez um dia me encontre”, passando pelo génio de Florbela no “amar assim perdidamente”, pode dizer-se que a geração de Luís Represas compreendeu muito bem a perenidade de uma língua viva até aos confins do Pacífico. “Há sempre alguém que nos diz, tem cuidado. / Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco. / Há sempre alguém que nos faz falta. / Ah! …Saudade”. É dessa sementeira de esperança que precisamos para delinear o futuro como autêntica partilha de vontades e de riscos, que só a amizade pode conter. Um abraço, querido Luís. 

Guilherme d’Oliveira Martins

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