Folhetim de Verão – Capítulo IX
Esta história não se ficaria por ali. António Ferro não teve dúvidas sobre que a melhor solução era a de seguir as audácias de Almada Negreiros. Havia que compreender os novos tempos e as novas tendências. Almada não estava só, e a corrente modernista estava em movimento. A revista “Presença” não era conformista e abria em vários sentidos. Entretanto, a perspetiva dos grandes cruzeiros anunciada nos anos trinta não se confirma. O pós-guerra é marcado por sacrifícios e austeridade e o ambiente artístico nada tem a ver com épicas ressonâncias. Almada Negreiros é desde o início um transgressor, ávido de experiências novas. Duarte Pacheco não esconde críticas ao que designa como “mamarrachos”. E se as pinturas de Alcântara são passáveis, na apreciação do todo poderoso Ministro da Obras Públicas, as que se anunciam na Rocha do Conde de Óbidos estão para além dos limites. O país representado pelo modernismo com realismo social a mais não servia a política cultural vigente. Agora a perspetiva é colocada nos que sofrem, no drama dos que têm de partir para fugir à miséria, nos saltimbancos que pedem esmola. Nada idealizado, tudo bem real. Perante um cenário em que os cruzeiros transatlânticos não estão na ordem do dia, equaciona-se a possibilidade de destruir os painéis, já que as gares não vão ser salas de visitas para visitantes estrangeiros e anunciam-se os voos aéreos intercontinentais. Ouvidos sobre a polémica o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, João Couto, vai ser perentório. Aquela obra era o melhor cartão de visita que Lisboa podia ter num ambicioso e moderno Cais da Europa. António Ferro estava de acordo, como bem sabemos. Entretanto, o desaparecimento trágico de Duarte Pacheco, em novembro de 1943, deixou o tema para as calendas gregas. Acontece que Almada Negreiros (e Ferro sabia-o) dizia que “nunca tinha feito nada de que mais se orgulhasse” – considerando-a como a obra mais sua. E como não se considerava artista do regime, apesar das aproximações, a ligação ao Secretariado da Propaganda Nacional não lhe tirava margem de manobra perante os artistas inconformistas. Além disso, tinha família para sustentar, não tinha outro empregador e tinha prestígio suficiente para ser respeitado. O tempo passado viria a confirmar plenamente o percurso autónomo do pintor sem cedências de qualidade duvidosa. António Ferro contava com o seu contributo para não perder uma aura de progresso e modernidade. E para que não houvesse dúvidas, o prestigiado diretor de Arte Antiga veio legitimar o valor cultural e artístico dos Painéis. Em vez de seguir uma linha previsível e menos interessante, como hoje se reconhece, os Painéis das Gares Marítimas completavam-se em coerência com as novas tendências culturais e artísticas. Pode dizer-se que estamos perante o capítulo final da orientação renovadora da “Política do Espírito”. As novas gerações dos anos cinquenta serão diferentes. E como salientará José-Augusto França há uma conjugação de fatores a marcar o novo tempo. A partida de António Ferro e a chegada da Fundação Gulbenkian. Azeredo Perdigão (homem do Orpheu e da Seara Nova) gerirá magistralmente a transição, não sem dificuldades, mas com sabedoria. E Almada Negreiros terá aí um reconhecimento, não só ao executar por encomenda o novo retrato de Fernando Pessoa, sob a inspiração do efeito de espelho dos Painéis de S. Vicente, mas também ao fazer para a Gulbenkian a sua obra final – sob o título “Começar”.
(Continua)
