Folhetim de Verão – Capítulo XIX
Voltando ao Livro do Desassossego, fala-se aí de três espécies de Portugal: um começou com a nacionalidade e refere-se às raízes e às origens, mas sente-se abandonado desde Alcácer Quibir; outro sofreu a invasão mental do exterior do tempo do iluminismo e outro começou a existir por alturas de El-Rei D. Dinis e fez as descobertas e a civilização transoceânica. Estes três tipos de Português têm uma mentalidade comum, pois todos são portugueses, mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-se entre si. O Português no seu fundo psicológico define-se, com razoável aproximação, por três características: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico, distingue-se por contraste do grego antigo com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico, distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro característico, distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável. O povo português é essencialmente cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português, foi sempre tudo… Eis por que razão o tudo e o nada se misturam. No seu sentido superior e profundo, a desvalorização internacional da nação portuguesa deriva de três fatores conjugados (da ação conjugada de três fatores) – a incultura geral como profissional do indivíduo português e sobretudo do indivíduo das classes médias; a deficiência da propaganda de Portugal no estrangeiro; e a ausência de consciência superior de nacionalidade. Diremos que o mal se chama provincianismo. E a síndroma provinciana compreende pelo menos três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e na esfera mental superior a incapacidade de ironia. Eis o diagnóstico de Bernardo Soares.
Estas considerações levam-nos a uma polémica anterior do pré “Orpheu”, sendo que a «Renascença Portuguesa» constitui o exemplo de como o republicanismo teve diversas leituras e exerceu uma influência multifacetada e rica na evolução do século XX português. Recorde-se que no dealbar da “A Águia” (em 1911), Teixeira de Pascoaes e Raul Proença apresentaram dois projetos de manifesto que, sendo bastante diferentes, representam aos olhos de hoje a imagem significativa do que foi originalmente a ideia. «O fim da “Renascença Lusitana” – escrevia Pascoaes – é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual, e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo que sejam essencialmente lusitanas». Raul Proença, por seu lado, falava “em pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar-se pelo que interessa aos homens lá de fora, dar-lhe o espírito atual, a cultura atual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais”. Como salientou José Augusto Seabra: “o ideal patriótico é idêntico, apenas os meios de o atingir divergem, embora sejam afinal complementares, como Pascoaes, aliás, n’ “A Águia”, intentará mostrar”. Ambos se demarcam do positivismo ou das lógicas redutoras, estando em causa o que Jaime Cortesão propunha: «dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana». Como dirá Pascoaes, havia que «criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo, onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram».
(Continua)
