Partiste num setembro.
Mas estás tanto comigo que te decalco em todos os meus caminhos.
Na caixa, todas as cartas que me escreveste desde que andaste pelo mundo e, nelas, muito do que fomos.
Respondo-te hoje mais um pouco, neste hábito de falar sempre contigo, criando e sendo eu — e muitos eus — reunida contigo e nos teus múltiplos. E, a cada dia, vou dizendo-te que entendo melhor que somos sempre menos do que somos, como continuamente dizias.
Somos um projeto mais aquilo que nos acompanha, e ainda assim, somos sombras chinesas e também podemos ser astros de quando em vez; podemos ser a nossa ilusão e a nossa realidade, e tudo é mundo que continua sem que nos valha o que nos iluminou ou deixou de iluminar no dia em que partimos, como tu partiste.
E foram em vão as cruzes, o amor, tal como me perguntaste na última carta?
Não, meu querido amigo, a água que corre, inconsciente, inexplicável e permanente, rio abaixo, é um sistema espiritual e absoluto que não frustra, porque no seu curso há uma enorme sensibilidade.
Bem creio que, nas tuas fotografias, procuraste sempre a vida e as ruturas, e por aí, tão intensamente, que a câmara já te dava os ângulos do teu próprio desejo; o teu infinito, a partir dali, ia-te dando os permeios da vida que desejavas entender, e assim te expandias e nos expandias só de olharmos para as tuas imagens de tantas cores no preto e branco.
Basta não considerar o belo e o não belo como fenómenos identicamente indiferentes. Assim disseste numa entrevista.
Eis um enorme auxílio para que se descubram os sentidos ocultos das coisas. Digo.
Depois, depois… afinal não partiste. És, para mim, um tapete de seda a desdobrar-se eternamente e a provar que a morte não é um avesso.
Como sabes, continuo a andar deveras ao colo da tua amizade, das tuas perturbantes analogias, dos alçapões que abro à lucidez nesta paisagem de muito ambos, pois tal é a lei que regula o mundo invisível.
Tal é a nossa orientação dentro dele.
Fui e sou a tua amiga
Gilda
Teresa Bracinha Vieira