Folhetim de Verão – Capítulo XXII
O cenário é o Liceu Camões, acabado de fundar, sucessor do antigo Liceu de S. Domingos, instalado no velho Palácio Regaleira, onde se encontraram Mário de Sá-Carneiro e o jovem António Ferro. O poeta estava em 1911 de partida para Coimbra, onde iniciaria fugazmente o curso de Leis, mas era a poesia e a literatura que o entusiasmavam. O novo liceu inaugurara-se no último ano do regime monárquico. Depois, viveu-se o entusiasmo da República nascente, que o jovem Ferro abraçou. A relação entre os dois pressupõe afinidade de interesses poéticos e curiosidade pela onda modernista que se ia desenvolvendo com uma marca forte de inconformismo. Foi por certo ainda no velho edifício do Largo de S. Domingos que se encontraram. A mudança para o novo bairro de Camões, iniciativa do banqueiro Burnay, numa herança do governo de João Franco, foi oportunidade para sentir os novos ares que a República trazia, sob a invocação do grande épico, que as comemorações de 1880 erigiram à condição de grande referência da causa pátria. Os três novos liceus da capital marcavam de facto uma nova era – o Passos Manuel lembrava a Revolução de Setembro de 1936, o Camões trazia à memória a grande campanha de mobilização cívica e o Pedro Nunes, por escolha livre da comunidade escolar, queria anunciar a modernidade científica. Mário de Sá-Carneiro e António Ferro têm uma diferença de idades de cinco anos, mas há uma evidente empatia entre ambos. O poeta, em sinal, de reconhecimento pelas qualidades do jovem amigo, oferece-lhe “Quadras para a Desconhecida” e “A Um Suicida”, dedicados a Tomás Cabreira Júnior, o jovem de raízes algarvias, filho de um futuro ministro da República, com quem escrevera a peça “Amizade” e que se suicidara nesse ano de 1911 nas escadas do novo liceu aos vinte anos de idade. Desiludido com Coimbra Sá-Carneiro, com o apoio do pai, parte para Paris para frequentar a Sorbonne. Logo em 1912, conhece Fernando Pessoa e entre os dois germina a ideia do projeto do “Orpheu”, constituindo-se um núcleo modernista. Nesse ano, António Ferro dá à estampa em colaboração com o advogado e humorista Augusto Cunha, que viria a casar-se com a sua irmã Umbelina Raquel, “Missal de Trovas”, livro constituído por quadras de gosto popular dedicadas a Augusto Gil e Fausto Guedes Teixeira, que viria a ser alvo de apreciações positivas e afetuosas de Fernando Pessoa, João de Barros, Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil e do próprio Sá-Carneiro. Terminado o curso dos liceus, inscreve-se em Direito na Universidade de Lisboa, que frequentará de 1913 a 1918 sem concluir a licenciatura. Já estudante de Direito, mas ainda menor de idade, é abordado por Mário de Sá-Carneiro para poder assumir a qualidade de editor da revista “Orpheu”. Diz a lenda que a escolha de um menor para tal encargo foi propositada. Havia muita agitação em torno do grupo modernista, e quem considerasse que a eventual presença de supostos paranoicos afetaria a credibilidade do projeto, como diria o famigerado Professor Júlio de Matos. Previam-se por isso diligências policiais ou de censura contra nova publicação. Com um menor no cargo haveria uma melhor prevenção. A certa altura, Fernando Pessoa, na dúvida sobre se Ferro dera todas as autorizações, insiste com Sá-Carneiro e este terá respondido – mais nada ser necessário, porque se tratar de um menor…
O momento decisivo corresponde à compreensão da importância do “Orpheu” e da geração que Almada enalteceu: “Em Portugal, no nosso século, dois gritos de Poesia se ouviram: Mário de Sá-Carneiro e Amadeo de Souza-Cardoso. Poesia das letras e Poesia das cores. Grito do verso que é arte precoce, e grito das cores que é a arte não precoce. Os dois modos da Poesia atuante em que o protagonista é o autor, e não a ficção”. Tudo dito, afinal, e o jovem Ferro compreendeu-o bem, através do poeta de quem foi amigo precoce. E ouvimos Mário de Sá-Carneiro: “Cafés da minha preguiça. / Sois hoje – que galardão! – / Todo o meu campo de ação / E toda minha cobiça”. Fernando Pessoa nas suas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação” disse: “Em Portugal hoje debatem-se duas correntes, antes não se debatem por enquanto, mas em todo o caso a sua existência é antagónica. Uma é a da Renascença Portuguesa, a outra é dupla, é realmente duas correntes. Divide-se no sensacionalismo, de que é chefe o sr. Alberto Caeiro, e no paùlismo, cujo representante principal é o sr. Fernando Pessoa. Ambas estas correntes são antagónicas àquela que é formada pela Renascença Portuguesa. Ambas são cosmopolitas, porquanto cada qual parte de umas das grandes correntes europeias atuais. O sensacionalismo prende-se à atitude enérgica, vibrante, cheia de admiração pela Vida, pela Matéria e pela Força, que tem lá fora representantes com Verhaeren, Marinetti, a Condessa de Noallles e Kipling (tantos géneros diferentes dentro da mesma corrente!); o paùlismo pertence à corrente cuja primeira manifestação nítida foi o simbolismo”.
Eis o mundo onde se situou António Ferro, assumindo com nitidez o sentido do movimento, mas não esquecendo a dimensão visual e a sensibilidade das coisas… Afinal, tudo começara na “Renascença Portuguesa”, e Caeiro, Campos e Reis nela coexistiram. Pascoais ficou entre ecos românticos… Para Ferro não há, porém, a tentação do espaço fechado ou do isolamento apesar do culto formal da ordem. Quando Almada Negreiros pintou varinas, saltimbancos e prostitutas nos painéis da Rocha do Conde de Óbidos, António Ferro não se deixou impressionar (ao contrário de Duarte Pacheco) e deu campo ao seu amigo da “Invenção do Dia Claro”, uma vez que agora se tratava de continuar a leitura viva da “Nau Catrineta que tem muito que contar”. A Arte era afinal o domínio da vida, a verdadeira “história de pasmar”.
(Continua)
